FIGURA I
Detalhe da Carte de l’Amerique méridionale, D’Anville, [s.d., 1742?]. In. FURTADO, J. F. Oráculos da geografia iluminista: dom Luís da Cunha e Jean-Baptiste Bourguignon D’Anville na construção da cartografia do Brasil. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 407.
TEXTO I
Ao produzir sua Carte de l’Amérique méridionale [Mapa da América Meridional] para o estudo do duque de Chartres (...) ele já modificara sensivelmente a fronteira nessa região (...). Afirmou que era necessário fazer uma extensão do território do Brasil até (...) a Colônia de Sacramento, mas a mesma tinha que ser interrompida na região de Montevidéu onde os espanhóis haviam se instalado. Observa-se assim que (...) na região sul do Brasil a linha de limites corresponde exatamente a essa nova percepção da configuração geopolítica. A raia, perpendicular à costa e não muito distante dela, coincide, grosso modo, ao local por onde passaria o meridiano de Tordesilhas. Dessa forma, alonga os domínios do Brasil até a foz do Prata, mas esses não abarcam toda a margem setentrional do rio. De fato, o território português toma na base final a forma de uma forquilha ou de um Y invertido. Umas das extremidades corresponde à Colônia de Sacramento e a outra à Ponta de Castilhos, ou Maldonado. No espaço entre as duas estaria Montevidéu, possessão que os espanhóis haviam assegurado e fortificado em 1736.
FURTADO, J. F. Oráculos da geografia iluminista: dom Luís da Cunha e Jean-Baptiste Bourguignon D’Anville na construção da cartografia do Brasil. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 515.
A pedido dos portugueses, o mapa projetado pelo geógrafo D’Anville, e descrito por Júnia Furtado, reflete o contexto geopolítico pelo qual passava a porção meridional da América. Trata-se de um vasto território disputado por Portugal e Espanha, que levaria os dois países a assinar o Tratado de Madri em 1750. Ao estabelecer como fronteira do Brasil a margem esquerda do Prata, o mapa pretendia convencer as autoridades francesas, que intermediariam a negociação do futuro acordo, a pensar que o(a)
jurisdição daquela região estaria bem delimitada e, portanto, livre de conflitos políticos.
meridiano de Tordesilhas estaria impreciso e as fronteiras do Brasil precisavam ser modificadas.
presença espanhola em Montevidéu seria indevida e feria o direito à soberania portuguesa na região.
Colônia de Sacramento correspondia a um apêndice do Brasil, sem importância econômica.
limite territorial do Brasil em forma de Y invertido resolvera a questão fronteiriça entre as Coroas.
Gabarito:
presença espanhola em Montevidéu seria indevida e feria o direito à soberania portuguesa na região.
A questão avalia se o aluno é capaz de interpretar diferentes fontes documentais e relacioná-las com a produção historiográfica de modo a compreender historicamente as relações de poder construída entre as nações. Neste caso, o estudante deveria relacionar o mapa com as informações trazidas pelo texto historiográfico para entender a geopolítica portuguesa no contexto das disputas com a Coroa espanhola pela soberania na América meridional. Tal problemática levaria Portugal e Espanha a assinar o Tratado de Madri em 1750, modificando sobremaneira as fronteiras territoriais do Brasil.
Gabarito: C
Ao modificar a fronteira do território brasileiro, prolongando-a até a margem esquerda do Rio da Prata (Colônia de Sacramento e Maldonado) na aparente conformidade do meridiano de Tordesilhas – conforme explicita o texto historiográfico –, o mapa de D’Anville apresentava-se de maneira a parecer que os espanhóis teriam descumprido o acordo de limites vigente (Tratado de Tordesilhas) e invadido as conquistas portuguesas no estuário platino. A posse de Montevidéu pela Espanha usurpava, portanto, a soberania portuguesa no território.
Distratores:
A Está incorreta, pois, apesar de geograficamente o mapa trazer a delimitação do território português e espanhol, a soberania da região ainda era objeto de disputa política entre as Coroas ibéricas. Se a jurisdição estivesse bem definida, não haveria a necessidade de abrir novas negociações para a assinatura de um outro acordo de limites em 1750 (Tratado de Madri).
B Está incorreta, pois era a raia que prolongava o território brasileiro que seria imprecisa. Segundo o texto historiográfico, a baliza coincidia, “grosso modo, ao local onde passaria o meridiano de Tordesilhas”. Assim, o mapa trabalhava no sentido de deixar as possessões portuguesas dentro dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas, ainda vigente naquele momento.
D Está incorreta, pois a posse de Sacramento permitia aos portugueses terem acesso a diversos produtos europeus e à prata de Potosí, já que ambos eram escoados através do estuário platino. Outro fato é que, ao firmar presença nos territórios meridionais, Portugal teria a chance de diminuir o poderio dos castelhanos no Rio da Prata e teria uma oportunidade de continuar desfrutando dos rendimentos da ganadaria. A indústria ganadeira, que desde o final dos Seiscentos recebera bastante incentivo da Coroa para que fosse promovida, era constituída das chamadas vacarias do Mar e dos Pinhais, localizadas em uma vasta área entre o norte do Rio da Prata até o sul do atual estado de Santa Catarina. Além disso, as informações trazidas pelos textos-base não nos permitem concluir sobre os benefícios econômicos que a Colônia de Sacramento traria aos portugueses.
E Está incorreta, pois a presença dos espanhóis em Montevidéu geraria mais tensão entre as Coroas ibéricas. O traçado do mapa do Brasil em Y invertido corroborava a ideia de que a Espanha havia invadido um território que, de acordo com as balizas impostas pelo meridiano de Tordesilhas, pertencia a Portugal. Para os portugueses, cabia a eles o direito de ocupar toda a porção de terra compreendida entre a Colônia de Sacramento e Maldonado, incluindo, portanto, a região de Montevidéu.