(AFA - 2017)
RETRATO
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
– em que espelho ficou perdida
a minha face?
(MEIRELES, Cecília. Obra Poética de Cecília Meireles. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958.)
Sobre os versos do poema acima, é correto afirmar que:
o poema traz referência à perda de todos os sentidos humanos, ocasionada pelo envelhecimento.
a visão do eu lírico oscila entre o pessimismo e o otimismo ante a efemeridade do tempo.
o tom melancólico se desfaz no décimo verso, quando o eu lírico constata a inevitabilidade da transformação física.
o eu lírico sente-se perplexo diante da consciência tardia das mudanças trazidas pela passagem do tempo.
Gabarito:
o eu lírico sente-se perplexo diante da consciência tardia das mudanças trazidas pela passagem do tempo.
a) Alternativa incorreta. Não há como inferir que o eu lírico fala sobre a perda dos sentidos humanos, mas sim de modificações corporais vindas com o envelhecimento.
b) Alternativa incorreta. A visão do eu lírico é majoritariamente pessimista, já que são apontados apenas problemas que vêm com o envelhecimento.
c) Alternativa incorreta. O décimo verso não desfaz o tom melancólico, mas o endossa. Trata-se do eu lírico se questionando como não se preparou para uma mudança corriqueira e conhecida como essa, do envelhecimento, comentada por todos.
d) Alternativa correta. Sobre os versos do poema “Retrato”, de Cecília Meireles, percebe-se a figuração de um eu que, diante de si mesmo, percebe os efeitos transformadores do tempo. O envelhecimento do corpo e dos sentidos desperta, no sujeito poético, um sentimento de dúvida, perplexidade, susto e fragmentação. Os seguintes versos corroboram com a análise proposta na alternativa correta: “Eu não tinha este rosto de hoje,/Assim calmo, assim triste, assim magro, (...)” e “Eu não dei por esta mudança,/Tão simples, tão certa, tão fácil:/– em que espelho ficou perdida/a minha face?”.