(G1 - epcar (Cpcar) 2018)
VIVEMOS O FIM DO MUNDO
Luis Antônio Giron
(...) Bauman é autor do conceito de “modernidade líquida”. 1Com a ideia de “liquidez”, ele tenta explicar as mudanças profundas que a civilização vem sofrendo com a globalização e o impacto da tecnologia da informação. Nesta entrevista, ele fala sobre como a vida, a política e os padrões culturais mudaram nos últimos 20 anos. As instituições políticas perderam representatividade porque sofrem com um “déficit perpétuo de poder”. Na cultura, a elite abandonou o projeto de incentivar e patrocinar a cultura e as artes. Segundo ele, hoje é moda, entre os líderes e formadores de opinião, aceitar todas as manifestações, mas não apoiar nenhuma.
(...)
ÉPOCA – As redes sociais aumentaram sua força na internet como ferramentas eficazes de mobilização. Como o senhor analisa o surgimento de uma sociedade em rede?
Bauman – Redes, você sabe, são interligadas, mas também estão descosturadas e remendadas por meio de conexões e desconexões... As redes sociais eram atividades de difícil implementação entre as comunidades do passado. De algum modo, elas continuam assim dentro do mundo off-line. No mundo interligado, porém, as interações sociais ganharam a aparência de brinquedo de crianças rápidas. Não parece haver esforço na parcela on-line, virtual, de nossa experiência de vida. Hoje, assistimos à tendência de adaptar nossas interações na vida real (off-line), como se imitássemos o padrão de conforto que experimentamos quando estamos no mundo on-line na internet.
ÉPOCA – Os jovens podem mudar e salvar o mundo? Ou nem os jovens podem fazer algo para alterar a história?
Bauman – Sou tudo, menos desesperançoso. Confio que os jovens possam perseguir e consertar o estrago que os mais velhos fizeram. Como e se forem capazes de pôr isso em prática, dependerá da imaginação e da determinação deles. Para que se deem uma oportunidade, 2os jovens precisam resistir às pressões da fragmentação e recuperar a consciência da responsabilidade compartilhada para o futuro do planeta e seus habitantes. Os jovens precisam trocar o mundo virtual pelo real.
ÉPOCA – O senhor afirma que as elites adotaram uma atitude de máximo de tolerância com o mínimo de seletividade. Qual a razão dessa atitude?
Bauman – Em relação ao domínio das escolhas culturais, a resposta é que 3não há mais autoconfiança quanto ao valor intrínseco das ofertas culturais disponíveis. Ao mesmo tempo, as elites renunciaram às ambições passadas, de empreender uma missão iluminadora da cultura. A elite deixou de ser o mecenas da cultura. 4Hoje, as elites medem sua superioridade cultural pela capacidade de devorar tudo.
(...)
ÉPOCA – Como diz o crítico George Steiner, os produtos culturais hoje visam ao máximo impacto e à obsolescência instantânea. Há uma saída para salvar a arte como uma experiência humana importante?
Bauman – Bem, 5esses produtos se comportam como o resto do mercado. Voltam-se para as vendas de produtos na sociedade dos consumidores. Uma vez que a busca pelo lucro continua a ser o motor mais importante da economia, há pouca oportunidade para que os objetos de arte cessem de obedecer à sentença de Steiner...
(...)
Revista Época nº 819, 10 de fevereiro de 2014, p. 68-70.
Aquilo que motiva a indignação de Mafalda, na tirinha acima, foi também, de certa forma, abordado por Bauman na entrevista “Vivemos no fim do mundo”.
Assinale a alternativa em que o entrevistado fala de um aspecto que resultou na literatura que tanto desagrada à personagem Mafalda.
“...esses produtos se comportam como o resto do mercado. Voltam-se para as vendas de produtos na sociedade dos consumidores.” (ref. 5)
“...os jovens precisam resistir às pressões da fragmentação e recuperar a consciência da responsabilidade compartilhada...” (ref. 2)
“Hoje, as elites medem sua superioridade cultural pela capacidade de devorar tudo.” (ref. 4)
“... não há mais autoconfiança quanto ao valor intrínseco das ofertas culturais disponíveis. (ref. 3)
Gabarito:
“...esses produtos se comportam como o resto do mercado. Voltam-se para as vendas de produtos na sociedade dos consumidores.” (ref. 5)