(G1/CFTMG - 2018/ Adaptada)
Soneto da intimidade
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
MORAES, Vinicius de. Nova Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
Escrito no século XX, o poema de Vinícius de Moraes dialoga com a poesia árcade ao integrar a forma clássica do soneto à temática bucólica. Por outro lado, o texto distingue-se das produções do século XVIII por apresentar
versos livres e sequências narrativas.
linguagem coloquial e intenção humorística.
vocabulário urbano e personificação de animais.
ausência de paradoxos e predomínio da subjetividade.
descrições da paisagem e temática não amorosa.
Gabarito:
linguagem coloquial e intenção humorística.
[B]
Mesmo que num cenário bucólico e seguindo os paradigmas formais neoclássicos (soneto metrificado e com rimas), o poema de Moraes revela uma subversão aos ideais sublimes do arcadismo. Palavras e expressões como "mijada", "há três anos atrás", "muito azul demais" revelam um tom escatológico, coloquial e irônico dos versos. Esse tipo de imagem era impensável para os poetas árcades do século XVIII, que figuravam o locus amoenus como sítio de encontro com o divino, exuberância pura da natureza e beleza absoluta.