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Questão 3017

FEEVALE 2016
Português

(Feevale 2016)  Na tardinha de 20 de Maio de 2013 embarquei no voo da Lufthansa ciente de que não dormiria. Não sabia que poltronas de avião são tão apertadas, nem que um varapau alemão invadiria meu espaço com seu joelho direito. Mas depois de noites e noites a sonhar com esta viagem, eu não haveria de fechar os olhos logo agora que a realizo, mesmo que estivesse refestelado na primeira classe.

Reservei um assento na janela na expectativa de avistar o mar, mas o avião nem bem decola e já embica nas nuvens. Por cima das nuvens, em altitude e velocidade de cruzeiro, seguimos mais ou menos a linha do litoral brasileiro que o navio do meu pai costeou em 1929. Acompanho a rota aérea na revista de bordo com a divertida sensação de sobrevoar, aos quase setenta anos de idade, os caminhos do meu pai antes dos trinta. Posso até me vangloriar de ter lido todos os livros espalhados no seu camarote, bem como tantos outros que ele só mais adiante virá a conhecer: já leu Kafka, seu Sérgio? e o que é que está esperando? Na ida para Europa meu pai ainda devia estar às voltas com gramáticas alemãs, quando muito se arriscaria em fábulas infantis com um dicionário no colo. E queimaria as pestanas tentando entender que diabo significa este texto, caso pudesse antever a carta que tenho em mãos, encabeçada por seu nome e selada com um Heil Hitler. Dispensado o jantar, aceito uma cerveja e repouso na mesinha retrátil a tênue folha de papel datilografada em frente e verso, como que dobrado e redobrado em diferentes bolsos, achatado dentro de um livro debaixo de livros, alongando uma carteira atrás de notas de dinheiro, digamos marcos alemães. Ando cismado que meu pai voltou com esta carta à Alemanha logo depois da guerra, num voo com várias escalas em avião a hélice. Não há como confirmar tal viagem, anterior às minhas primeiras lembranças e jamais mencionada lá em casa. Mas posso imaginá-lo num táxi acendendo um cigarro no outro, em meio aos escombros e à poeirada no setor oriental de Berlim, rumo à moradia do casal que tempos antes se afeiçoara a seu filho. Pelo que me informei na enciclopédia virtual, no endereço dos Gunther funcionava uma fábrica de cigarros, adaptada em meados dos anos 30 para a confecção de uniformes militares. Suponho que o sr. Gunther, mantido como zelador ou gerente de um certo Serviço de Vestimentas do Reich, fosse incumbido de fiscalizar as salas de costura, o empacotamento, armazenamento e carregamento da mercadoria em veículos das Forças Armadas. Da Greifswalder Strasse 212/213 partiram uniformes para a conquista da Europa, dólmãs verde-cinza de seus ateliês desfilaram na Champs-Élysées de Paris sob a ocupação. Dali também podem ter saído as temidas indumentárias negras da SS, além de capotes de lã que se sujaram de sangue e se estropiaram, ou congelaram com seus usuários, ou foram enterrados com eles nas estepes da Rússia. Após a rendição da Alemanha, lotes de fardas e cortes de tecido devem ter remanescido em estoque, sem que os Gunther soubessem agora que fim lhes dar. E ainda atordoados pelos últimos bombardeios, talvez assombrados pelas revelações de um passado recente em seu país, abririam a porta relutantes para aquele homem de meia-idade que perguntava com voz grave e forte sotaque pelo sr. Gunther, quem sabe um agente dos serviços secretos soviéticos. Mas assim que ele se identificasse como Sérgio Hollander, natural do Brasil, América do Sul, seria posto a correr pelo dono da casa indignado. E a sra. Gunther não hesitaria em denunciar o forasteiro à polícia, para impedi-lo de se aproximar com mau intento de um menor de idade. Porém, levando-se em conta que o casal tinha a guarda provisória da criança em 1934, e que nos anos mais tarde meu pai ainda não reunira os documentos requisitados pela corte de doação, parece mais razoável que nesse meio-tempo os Gunther devolvessem meu irmão ao asilo, em troca de algum órfão com pedigree comprovado. E mal se lembrariam do brasileirinho quando meu pai batesse à porta e se identificasse como Sérgio de Hollander, natural do Brasil, América do Sul. Mas seriam corteses, lhe ofereceriam uma cadeira, lhe serviriam um café aguado e não esconderiam o orgulho ao lhe apresentarem o herdeiro, um garoto de traços finos, loiro e de olhos azuis. Inconformado, da casa dos Gunther papai deve ter seguido para a Secretaria da Infância e da Juventude, de onde retiraria Sergio Ernst caso o encontrasse, aos quinze anos, ainda sentado à espera de uma boa alma que lhe desse um lar.

 

(BUARQUE, C. O Irmão Alemão. São Paulo: Cia das Letras, 2014, p. 206-207).

 

 

Com base no texto, considere verdadeiras (V) ou falsas (F) as proposições que seguem. O excerto narra

 

(     ) o momento em que o irmão alemão do narrador sai da Alemanha em direção ao Brasil para conhecer a família de seu pai.

(     ) o instante em que o irmão do narrador está aguardando a formalização de sua adoção pela família brasileira na casa da senhora Gunther.

(     ) a viagem do narrador para a Alemanha, a fim de encontrar seu irmão alemão, não reconhecido por seu pai.

 

Marque a alternativa que preenche corretamente os parênteses, de cima para baixo.

A
V – V – V
B
F – V – V
C
F – F – V
D
V – V – F
E
V – F – V

Gabarito: F – F – V

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