(FCC - 2008)
Perversão da Aufklärung*
Os países da América Latina realizaram a sua independência política sob o influxo da Ilustração. Os seus promotores assumiram alguns princípios desta, que atuaram como fator de unidade dentro da grande diversidade das culturas existentes entre o México e a Terra do Fogo. Um desses princípios pode ser expresso por meio das seguintes proposições: 1) o saber trará a felicidade dos povos; 2) este saber é aquele que veio da Europa, trazido pelo colonizador; 3) os detentores deste saber formam uma elite que deve orientar o destino das jovens nações.
A principal conseqüência foi a idéia de que o saber seria difundido entre todos, a partir das luzes de uns poucos. Esta era a missão das elites, como se elas dissessem: “Devemos possuir os instrumentos do poder, porque sabemos, e como sabemos, levaremos os outros ao saber, que é a felicidade. Confiem em nós.”
Mas essas convicções e atitudes de cunho acentuadamente ideológico tiveram, ao contrário, a conseqüência de fechar e restringir a iniciação na cultura intelectual, bem como o seu uso social e político. De ideal ilustrado, teoricamente universal e altruísta, ele se tornou em boa parte um saber de classe e de grupo, um instrumento de dominação que serviu por sua vez para segregar o povo e mantê-lo em condição inferior pela privação do saber.
(Antonio Candido, Textos de intervenção)
As proposições discriminadas no primeiro parágrafo estão reunidas, de forma sintética, correta e coerente, no seguinte período:
Os detentores do saber europeu, que implica na felicidade dos povos, constituem uma elite a quem cabe destinar positivamente às jovens nações.
Aos detentores do saber trazido da Europa para proporcionar felicidade aos povos cabe encaminhar as jovens nações ao seu melhor destino.
Para orientar as jovens nações, o saber das elites torna-se imprescindível enquanto meio de acarretar a felicidade ao destino destes povos.
Vindo da Europa com o colonizador, o saber das elites constitue um instrumento para dirimir o feliz destino dos povos das jovens nações.
Que as elites desse saber que traz a felicidade dos povos, saibam valer-se do legado europeu no sentido de imprimir um destino às jovens nações.
Gabarito:
Aos detentores do saber trazido da Europa para proporcionar felicidade aos povos cabe encaminhar as jovens nações ao seu melhor destino.
[B]
O enunciado solicita que se reorganizem as proposições listadas no primeiro parágrafo de modo a formarem um único período coerente e coeso. As proposições são as seguintes:
"1) o saber trará a felicidade dos povos; 2) este saber é aquele que veio da Europa, trazido pelo colonizador; 3) os detentores deste saber formam uma elite que deve orientar o destino das jovens nações."
a) Os detentores do saber europeu, que implica na felicidade dos povos, constituem uma elite a quem cabe destinar positivamente às jovens nações. >> O "saber europeu" não implica na felicidade, e sim seu uso pelas elites que devem destiná-lo a tal fim;
b) Aos detentores do saber trazido da Europa para proporcionar felicidade aos povos cabe encaminhar as jovens nações ao seu melhor destino. >> O encaminhamento das nações é corretamente atribuído aos "detentores do saber", que é trazido em função da felicidade dos povos, como meio de esclarecimento. As relações estão correta e coerentemente expressas;
c) Para orientar as jovens nações, o saber das elites torna-se imprescindível enquanto meio de acarretar a felicidade ao destino destes povos. >> Nas proposições, não há uma relação entre felicidade e destino, como implica essa construção. O que há é a mediação das elites entre a felicidade provocada pelo saber, sua recepção e a condução das jovens nações;
d) Vindo da Europa com o colonizador, o saber das elites constitui um instrumento para dirimir o feliz destino dos povos das jovens nações. >> O verbo "dirimir" significa obstruir. Segundo as proposições, os "saberes" trarão a felicidade, e não a impedirão; Além disso, esse período dá a entender que o saber que vem já é das elites, sendo que ele é apropriado por essas elites e parte dos europeus;
e) Que as elites desse saber que traz a felicidade dos povos, saibam valer-se do legado europeu no sentido de imprimir um destino às jovens nações. >> A vírgula utilizada separa sujeito e predicado, constituindo desvio de norma padrão. Além disso, não é o "legado europeu" que carrega o sentido de "imprimir um destino", e sim as elites que o farão, como algo "novo".