(FCC 2018)
Segundo Gilberto Freyre, o elemento que exerceu o papel preponderante na história social brasileira foi
o Estado patrimonialista português e suas ramificações no Brasil colonial.
a Igreja Católica, sobretudo os jesuítas.
a família patriarcal em sua forma extensa, abrangendo senhores, escravos e agregados.
as classes sociais em luta, à época colonial representadas pela aristocracia rural e pelos trabalhadores negros escravizados.
os movimentos nativistas de luta pela independência nacional, liderados pela burguesia nascente, em oposição à Coroa portuguesa.
Gabarito:
a família patriarcal em sua forma extensa, abrangendo senhores, escravos e agregados.
A questão pode ser respondida com facilidade se o aluno for familiarizado com o autor. Em meio a seus estudos sobre a formação da sociedade brasileira Freyre escreveu uma trilogia de nome "Introdução à Sociedade Patriarcal no Brasil", cujo primeiro volume é "Casa-Grande & Senzala", seguido por "Sobrados e Mucambos" e, finalmente, "Ordem e Progresso". O antropólogo pernambucano buscou conceber nestas obras um plano de interpretação da sociedade brasileira a partir da família patriarcal na época colonial.
O modelo da família patriarcal remete à miscigenação, à aproximação dos escravos negros às famílias brancas e, nesse sentido, ao mito da democracia racial. Além disso, não sendo o foco da questão, tal modelo familiar gerou uma forma específica de organização social no Brasil, que teve grande implicação na organização política: trata-se do patronato político. As práticas do apadrinhamento e do clientelismo por parte dos chamados coronéis (líderes políticos locais) consistem em “estender os domínios privados” (o âmbito familiar) para a esfera pública, para os domínios da atividade política.
Na obra “Casa Grande & Senzala”, Freyre sistematiza o conceito de democracia racial, colocando a escravidão fora da ótica da simples dominação. Nessa obra, a condição do escravo é historicamente articulada com relatos e dados em que os escravos não estão totalmente inseridos na condição do trabalho compulsório. Nas casas e lavouras, muitos escravos desfrutaram de certo conforto material e ocuparam posições de prestígio na hierarquia da sociedade colonial e também posições de confiança na família, especialmente devido à constituição extensa da família patriarcal, que englobava os escravos e agregados como parte dessa família (temos, como exemplo, as amas de leite).
Falando sobre a miscigenação, Freyre afirma em “Casa Grande & Senzala”: "Sem deixarem de ser relações - as dos brancos com as mulheres de cor - de 'superiores' com 'inferiores' e, no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que doutro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala."
Do ponto de vista sociológico, o Brasil se constituiu sobre o mito da democracia racial, especialmente após a publicação das obras de Freyre. A obra mais famosa, “Casa Grande & Senzala”, é fundamentada, então na análise da formação social do Brasil que, por sua vez, tem raízes no modelo da família patriarcal. Assim, o elemento que exerceu o papel preponderante na história social brasileira foi a família patriarcal em sua forma extensa, que abrangia senhores, escravos e agregados.
“Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações de raça: dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado; no máximo de contemporização da cultura adventícia com a nativa, a do conquistador com a do conquistado. Organizou-se uma sociedade cristã na superestrutura, com a mulher indígena, recém-batizada, por esposa e mãe de família; e servindo-se em sua economia e vida doméstica de muitas das tradições, experiências e utensílios da gente autóctone.”
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 49ª Ed. São Paulo: Global 2004. p. 160