(FUVEST - 2018 - 2ª FASE)
Leia o texto e responda ao que se pede.
- Não veem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens? A seus pés ainda está a seca raiz da murta* frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto.
José de Alencar, Iracema
* murta: arbusto, árvore pequena
a) É possível relacionar a imagem da murta ao destino de Iracema no romance? Explique.
b) A frase “Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto” pode ser entendida como uma alegoria do processo de colonização do Brasil? Explique.
Gabarito:
Resolução:
a) José de Alencar, em "Iracema", frequentemente encadeia metáforas e alegorias da natureza para representar a vida, a beleza e os sentimentos da heroína do romance. Iracema pode, sim, ser simbolizada pela murta nessa passagem: raiz fincada na terra, mas que cede sua vida até secar por um tronco frondoso, Martim, que depende de seu sacrifício para sobreviver. Iracema morre pra amamentar seu filho e protegê-lo na ausência do guerreiro branco e, como o arbusto amazônico, se martiriza em prol de seu instinto de proteção do outro.
b) A imagem da morte da murta, Iracema (ou, no caso da alegoria, a América) aos pés do sólido e imponente tronco do jacarandá, Martim (que alegoriza o guerreiro português colonizador) pode, sim, simbolizar o processo violento de dominação dos povos e conquista de terras indígenas no século XVI. A presença do nativo é essencial para a sobrevivência do dominador, enquanto a ação portuguesa é destrutiva e condena os povos orginais a abdicar de seu solo. Se os indígenas tivessem sido capazes de resistir à violência portuguesa, estes últimos não teriam "sol" para concretizar sua expansão em terras brasileiras.