| (FUVEST - 2021 - 2 fase) |
Leia o texto para responder à questão.
Nessa mesma noite, leu-lhe o artigo que advertia o partido da conveniência de não ceder às perfídias do poder apoiando em algumas províncias certa gente corrupta e sem valor. Eis que a conclusão:
"Os partidos devem ser uniddos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile dictu!*) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos dos adversários. Risum teneatis!** Quem pode proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes? Mas suponhamos que assim seja, que a oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, à postergação das leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e aos sofismas. Quid inde?*** Tais casos - aliás, raros, - só podiam ser admitidos quando favorecessem os elementos bons, não os maus. Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. É interesse dos nosso adversários ver-nos afrouxar, a troco da animação dada à parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos guerra intestina, isto é, à dilaceração da alma nacional...Mas, não, as ideias não morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que pôem acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitória indefectível dos princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si. Alea jacta est****".
(...)
Rubião aplaudu o artigo; achava-o excelente. Talvez poucco enérgico. Vendilhões, por exemplo, era bem dito; mas ficava melhor vis vendilhões.
- Vis vendilhões? Há só um inconveniente, ponderou Camacho. É a repetição dos vv. Vis vem... Vis vendilhões; não sente que o som fica desagradável?
- Mas lá em cima há vés vis...
- Vae victis. Mas é uma frase latina. Podemos arranjar outra coisa: vis mercadores.
- Vis mercadores é bom.
- Contudo, mercadores não tem a força de vendilhões.
- Então, por que não deixa vendilhões? Vis vendilhões é forete, ninguém repara no som. Olhe, eu nunca dou por isso. Gosto de energia. Vis vendilhões.
Machado de Assis, Quincas Borba
*"Coisa admirável de dizer." **"Contereis o riso." ***"O que então?" ****"A sorte está lançada."
a) Segundo Camacho, os partidos possuem entre os seus membros "díscolos e sicofantas", isto é, dissidentes e caluniadores. De que modo a retórica do político constitui um artifícil para persuadir seu ouvinte quanto aos erros de alguns correligionários?
b) A expressão latina Vae victis! ("Ai dos vencidos!") lembra ao leitor a máxima da filosofia que Quincas Borba apresenta a Rubião no início do romance. Como essas duas frases se contrapõem na trajetória do protagonista?
Gabarito:
Resolução:
a) Camacho, em Quincas Borba, é um político do partido de oposição que, como vários outros personagens, revela-se um grande oportunista. Sua retórica corrobora com essa intenção oportunista, ao buscar um rebuscamento sofismático, que leva o discurso à ambiguidade, com palavras difíceis e tortuosas, a fim de convencer o ouvinte de argumentos falsos. Na fala em questão, o orador afirma que a “dissidência” de membros de seu partido não necessariamente indica que eles estejam indo contra os ideais defendidos pelo partido de oposição, mas este pensamento pode ser considerado errado, pois Camacho quer dizer que não tem muita importância haver dissidentes, desde que estes sejam boas pessoas, bons políticos. Assim, podemos concluir que a oposição pode ser comprada em troca de certos privilégios, compondo e apoiando o governo, indo contra os princípios que defendiam quando estavam na oposição, mas para Camacho isto não conta como uma traição, apesar de ser um comportamento claramente escuso.
b) A citação latina (“Ai dos vencidos”) e a máxima “humanitista” do filósofo (“Ao vencedor, as batatas!”) constituem um binômio que, no romance, se reflete nas ações e destinos de Rubião. Isso porque o protagonista ocupa as duas posições: a de vencedor e a de vencido. Ao receber a herança e experimentar uma expressiva ascensão social, Rubião é humanitas, um vencedor que recebe do mundo suas batatas e caminha na direção do sucesso e da sobrevivência social. Diferente do previsto na filosofia, entretanto, a história desse vencedor se converte numa derrota: atraiçoado por Cristiano Palha, Sofia e outros personagens, Rubião assiste à própria falência material e psíquica, que o leva ao miserável fim, pobre e demente, vencido.