(G1 - ifpe 2018)
PAI CONTRA MÃE
A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. [...]
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa gratificação". [...] Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse. [...] Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas, por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras.
ASSIS, Machado de. Pai contra mãe. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000245.pdf>. Acesso em: 05 nov. 2017.
As proposições a seguir são considerações acerca de aspectos linguístico-gramaticais do texto. Analise-as.
I. No primeiro parágrafo, encontra-se o substantivo “folha-de-flandres”, o qual passou a ser grafado sem hífen após a instituição do último acordo ortográfico.
II. Em “Há meio século, os escravos fugiam com frequência” (3º parágrafo), o uso da vírgula é obrigatório porque a expressão destacada cumpre função adverbial e está deslocada, iniciando o período.
III. Em “Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico...” (4º parágrafo), a vírgula, no trecho grifado, poderia ser substituída por dois-pontos sem prejuízo gramatical e sem alteração de sentido.
IV. Em “Quando não vinha a quantia, vinha promessa: ‘gratificar-se-á generosamente’...” (4º parágrafo), a conjunção destacada introduz ideia de tempo no período, podendo ser substituída pelas locuções conjuntivas “assim que” ou “tão logo”.
V. Em “por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade...” (4º parágrafo), o verbo grifado tem como sujeito a expressão “instrumento da força”, sendo assim, para com ela estabelecer concordância, está corretamente grafado com acento circunflexo.
Estão CORRETAS, apenas, as afirmativas
II e IV.
I, II e III.
I, III e V.
III e IV.
I, II e IV.
Gabarito:
I, II e III.
[B]
[IV] Incorreta: a conjunção expressa tempo e ideia de simultaneidade, e pode ser substituída por “sempre que”, por exemplo.
[V] Incorreta: o sujeito de “mantêm” é “a lei e a propriedade” e, por isso, o verbo é grafado assim, mantendo a concordância.