(G1 - ifsul 2015)
Leia atentamente o texto abaixo para responder à(s) questão(ões).
Agora todo mundo tem opinião
Meu amigo Adamastor, o gigante, me apareceu hoje de manhã, muito cedo, aqui na biblioteca, e disse que vinha a fim de um cafezinho. 1Mentira, eu sei. 2Quando ele vem tomar um cafezinho é porque está com alguma ideia borbulhando em sua mente.
E estava. 3Depois do primeiro gole e antes do segundo, café muito quente, ele afirmou que concorda plenamente com a democratização da informação. Agora, com o advento da internet, qualquer pessoa, democraticamente, pode externar aquilo que pensa.
4Balancei a cabeça, na demonstração de uma quase divergência, e seu 5espanto também me espantou. Como assim, ele perguntou, está renegando a democracia6? Pedi com modos a meu amigo que não 7embaralhasse as coisas. Democracia não é um termo 8divinatório, que se aplique sempre, em qualquer situação.
Ele tomou o segundo gole com certa avidez e 9queimou a língua.
Bem, voltando ao assunto, nada contra a democratização dos meios para que se divulguem as opiniões, as mais diversas, mais esdrúxulas, mais inovadoras, e tudo o mais. É um direito que toda pessoa tem10: emitir opinião.
O que o Adamastor não sabia é que uns dias atrás andei consultando uns filósofos, alguns antigos, outros modernos, desses que tratam de um 11palavrão que sobrevive até os dias atuais: gnoseologia. Isso aí, para dizer teoria do conhecimento.
Sim, e daí?12, ele insistiu.
O mal que vejo, continuei, não está na 13enxurrada de opiniões as mais isso ou aquilo na internet, e principalmente com a chegada do Facebook. Isso sem contar a imensa quantidade de textos 14apócrifos, muitas vezes até opostos ao pensamento do presumido autor, falsamente presumido. A graça está no fato de que todos, agora, têm opinião sobre tudo.
− Mas isso não é bom?
O gigante15, depois da maldição de Netuno16, tornou-se um ser impaciente.
O fato, em si, não tem importância alguma. O problema é que muita gente lê a enxurrada de bobagens que aparecem na internet não como opinião, mas como conhecimento. O Platão, por exemplo, afirmava que opinião (doxa) era o falso conhecimento. O conhecimento verdadeiro (episteme) depende de estudo profundo, comprovação metódica, teste de validade. Essas coisas de que se vale em geral a ciência.
O mal que há nessa “democratização” dos veículos é que se formam crenças sem fundamento, mudam-se as opiniões das pessoas, afirmam-se absurdos em que muita pessoa ingênua acaba acreditando. Sim, porque estudar, comprovar metodicamente, testar a validade, tudo isso dá muito trabalho.
O Adamastor não estava muito convencido da 17justeza dos meus argumentos, mas o café tinha terminado e ele se despediu.
Texto de Menalton Braff, publicado em 03 de abril de 2015. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/cultura/agora-todo-mundo-tem-opiniao-7377.html>. Acesso em: 20 abr. 2015.
As conjunções e os pronomes têm a finalidade de ligar palavras, orações e ideias, estabelecendo a coesão textual.
Em qual alternativa o termo destacado NÃO desempenha essa função?
Mentira, eu sei. (ref. 1).
Quando ele vem tomar um cafezinho é porque está com alguma ideia borbulhando em sua mente. (ref. 2).
Depois do primeiro gole e antes do segundo, café muito quente, ele afirmou que concorda plenamente com a democratização da informação. (ref. 3).
Balancei a cabeça, na demonstração de uma quase divergência, e seu espanto também me espantou. (ref. 4).
Gabarito:
Mentira, eu sei. (ref. 1).
a) A palavra “eu” de [A] não expressa nenhuma ligação entre palavras, apenas demarca quem é que sabe (sujeito).
b) A palavra “quando” de [B] expressa uma condição temporal (ir tomar um cafezinho) para que se saiba que ele está com alguma ideia borbulhando. Assim, tem a função de fazer essa ligação temporal e condição entre as orações.
c) A palavra “ele” de [C] faz a ligação entre a primeira parte da oração e a segunda, uma vez que localiza o sujeito “ele” no tempo “depois do primeiro gole e antes do segundo” e na ação seguinte “afirmou que concorda plenamente com a democratização da informação”.
d) A palavra “e” de [D] tem um valor aditivo, de ligação entre duas orações.