(IFSul - 2018)
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Viver a vida ou registrá-la nos celulares, eis a questão
Marcelo Gleiser
De alguns anos para cá, uma transformação profunda ________ ocorrendo em nossas vidas, mesmo que poucos reflitam sobre ela. Com a rápida evolução dos smartphones, ficou tão fácil capturar imagens da vida, que o que antes era complicado e oneroso – comprar um filme fotográfico, levar a câmera a tiracolo, revelar o filme na ótica, pegar as fotos reveladas – hoje é algo que todo mundo (ou quase) pode fazer. Tudo é devidamente registrado, do mais significativo ao mais trivial.
Todo mundo é ou quer ser a estrela principal do grande filme da sua vida, e capturar os momentos julgados importantes é construir, aos poucos, essa narrativa pessoal. O filme da sua vida vive, virtualmente, nas redes sociais. No YouTube, vídeos viram "virais", atingindo milhares e até milhões de pessoas em horas. Cachorros salvando veadinhos que se ________, aviões em pane, jogadores de videogame seguidos por adolescentes do mundo inteiro, cenas variadas da vida de indivíduos – cômicas e trágicas – são compartilhadas globalmente, com pessoas do Afeganistão à Zâmbia.
Por um lado, isso faz sentido: nossas vidas são importantes, e queremos dividi-las, ser vistos, apreciados, tanto pelos amigos quanto por estranhos. Mas por outro, essa voracidade de capturar a vida tecnologicamente acaba por nos separar dela, criando um distanciamento do momento, da experiência visceral de estar vivo. Vivemos mais para mostrar aos outros nossas vidas do que para apreciá-la a cada momento.
Essa transição começou antes dos celulares. Algo ocorreu entre o diário pessoal que [20] trancávamos na gaveta e a câmera de vídeo portátil. Por exemplo, em junho de 2001 levei um grupo de ex-alunos da minha universidade num cruzeiro para observar um eclipse total do sol na África. No navio, encontrei vários "caçadores de eclipse", pessoas que viajam o mundo atrás de eclipses. Faz sentido, visto que poucos fenômenos naturais são tão espetaculares, capazes de despertar uma emoção tão profunda. […] Durante alguns minutos, tudo se transforma, o dia vira noite, o Sol coberto pelo disco da Lua, cercado pelos raios difusos da corona. Para vivenciar isso, temos que olhar para o céu com foco total. Mas o que vi, quando o eclipse ia começar, foi o convés do navio repleto de câmeras e tripés, as pessoas afoitas para fotografar e gravar o evento.
As pessoas escolheram vivenciar esse momento tão raro e especial através de lentes e filtros, em vez de vivê-lo diretamente. Fiquei chocado, especialmente porque o navio tinha fotógrafos profissionais que ________ dar suas fotos para os passageiros. Mas as pessoas queriam as suas fotos e vídeos, mesmo sabendo que não seriam tão boas. Participei de dois outros eclipses e é sempre a mesma coisa. As pessoas optam por capturar a realidade através de uma máquina, diluindo a emoção do momento. Com os celulares e a mídia social, ficou infinitamente mais fácil arquivar e distribuir imagens. O alcance é potencialmente enorme, e o nível de gratificação mensurável (quantos "likes" uma foto ou vídeo ganha). Essencialmente, a vida moderna se transformou num evento social compartilhável.
Claro que existe um lado positivo de tudo isso. Queremos e devemos celebrar momentos significativos e dividi-los com pessoas queridas e próximas. O problema começa quando a ânsia de registrar o momento ofusca a experiência de vivenciá-lo. Músicos e comediantes reclamam que não podem ver seu público, apenas um mar de iPhones e iPads. Algumas celebridades estão proibindo o uso de celulares nos seus casamentos, exigindo a presença concreta de seus convidados, e não a virtual.
O mesmo ocorre com palestras e aulas que usam Powerpoint. Assim que a tela se ilumina, os olhares vão para ela, e o apresentador é uma voz solta no espaço, incapaz de criar uma relação direta com a audiência. Por isso, tendo a usar essas tecnologias minimamente hoje em dia.
Sem querer ser muito nostálgico (mas sendo), nada suplanta o contato direto, olho no olho, o estar presente no momento, com a família ou amigos, ou mesmo sozinho. Os celulares são incríveis, claro. Mas não ________ definir como vivemos nossas vidas – apenas complementá-las.
Publicado em 23 jul. 2017. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2017
Para atender à sintaxe de concordância, as lacunas do texto devem ser preenchidas, respectivamente, com
vêm – afogam – iria – deveriam.
vem – afoga – iriam – deveria.
vêm – afoga – iria – deveria.
vem – afogam – iriam – deveriam
Gabarito:
vem – afogam – iriam – deveriam
(I) De alguns anos para cá, uma transformação profunda vem ocorrendo em nossas vidas... => deve ser usado o "vem" porque o sujeito da oração está no singular (uma transformação profunda), e não no plural;
(II) Cachorros salvando veadinhos que se afogam, aviões em pane... => como o sujeito do verbo na lacuna é "veadinhos" (no plural), deve ser usado o verbo "afogar" que também esteja no plural (afogam);
(III) Fiquei chocado, especialmente porque o navio tinha fotógrafos profissionais que iriam dar suas fotos para os passageiros... => o sujeito do verbo na lacuna é "fotógrafos profissionais" e a locução verbal é "ir dar". Como em locuções verbais o verbo que se conjuga é o auxiliar IR, então ele deve ser conjugado na terceira pessoa do plural (iriam).
(IV) Os celulares são incríveis, claro. Mas não deveriam definir... => o sujeito dessa oração está presente na sentença anterior (Os celulares são incríveis). Logo, como o sujeito está na terceira pessoa do plural (os celulares), então o verbo também deve ser conjugado nesse tempo e pessoa (deveriam).
Logo, a alternativa correta é a letra d.