(IME - 2016/2017 - 2ª FASE)
Texto 3
OS LUSÍADAS - CANTO PRIMEIRO
Luís de Camões
1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(…)
106
No mar tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida
Onde pode acolher-se um fraco humano
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
CAMÕES, Luís de (1524-1580). Os Lusíadas. São Paulo: Abril Cultural, [1572] 1979, pp. 29- 31 e 61.
A palavra “QUE” nos versos do Texto 3 “Que eu canto o peito ilustre, Lusitano” (verso 21) e “Que outro valor mais alto se alevanta” (verso 24) tem valor
explicativo: introduz ideia de explicação. Na forma apresentada, é uma redução da conjunção “porque”.
adversativo: introduz ideia de contraste entre lusitanos e demais povos.
aditivo: expressa ideia de adição, união do povo lusitano para atingir os feitos cantados pelo poeta.
conclusivo: expressa uma situação de consequência.
alternativo: ora os heróis são os portugueses, ora gregos e troianos.
Gabarito:
explicativo: introduz ideia de explicação. Na forma apresentada, é uma redução da conjunção “porque”.
A) CORRETA: a palavra “QUE” nos versos do Texto 3 “Que eu canto o peito ilustre, Lusitano” e “Que outro valor mais alto se alevanta” tem valor explicativo, pois introduz ideia de explicação. Na forma apresentada, é uma redução da conjunção “porque”:
“Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”
B) INCORRETA: porque a conjunção "que" não possui sentido capaz de contrapor uma ideia ante a outra assim como "mas", "porém", "todavia", etc. É possível ver que, caso a conjunção fosse substituída por uma destas sugestões, o sentido criado não estaria de acordo com o sentido inicial.
C) INCORRETA: pois, em princípio, para que a ideia de adição seja exemplificada, as oraçoes deveriam possuir uma relação de coordenação entre si, isto é, uma ser independente da outra, mas a segunda oração não possui sentido sem a primeira. Além disso, a união não precisa necessariamente ser expressada por essas conjunções, mas por outros termos
D) INCORRETA: por mais que a conjunção "que" possa ser utilizada com o sentido consecutivo, nesse caso não é cabível, pois a situação que é expressa nas primeiras orações ("A fama das vitórias que tiveram" e "Cesse tudo o que a Musa antiga canta") não demandam uma consequência direta que obrigatoriamente deveria aparecer para que o sentido da sentneça seja completo, mas a oração subordinada que as acompanham têm caráter explicativo e adicional.
E) INCORRETA: para que uma conjunção tenha valor alternativa, ela deve vir sempre em pares: "tanto... quanto", "ou... ou", "ora... ora", etc. Nos casos apresentados acima, somente foi utilizada uma conjunção, que já descarta o fato de ser alternativa.