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Questão 68550

ITA 2022
Redação

(ITA - 2022 - 2ª fase)

Com base no seu conhecimento e em pelo menos um dos itens da coletânea, discorra argumentativamente sobre o seguinte tema: a influência do medo nas ações humanas.

Item 1. "Ao princípio esperança, contrapomos o princípio da responsabilidade, e não o princípio medo. Mas, certamente, o medo pertence à responsabilidade, tanto quanto a esperança. A esperança é uma condição de toda ação, pois ela supõe ser possível fazer algo e diz que vale a pena fazê-lo em uma determinada situação. Para o homem experimentado, e mesmo para o favorecido pela sorte, pode tratar-se de algo mais do que esperança: da certeza daquele que confia em si mesmo. Mas, por maior que seja a confiança em si, só se poderia ter a esperança de que os desdobramentos daquilo que já se obteve será, no fluxo imprevisível das coisas, aquilo que se desejou. Os homens experientes sabem que um dia podem desejar ter agido desta ou daquela forma. O medo de que falo não se refere a esse tipo de incerteza, ou ele pode estar presente apenas como um efeito secundário. Com efeito, é uma das condições da ação responsável não se deixar deter por esse tipo de incerteza, assumindo-se, ao contrário, a responsabilidade pelo desconhecido, dando o caráter incerto da esperança; isso é o que chamamos de 'coragem para assumir a responsabilidade'. O medo que faz parte da responsabilidade não é aquele que nos aconselha a não agir, mas aquele que nos convida a agir. Trata-se de um medo que tem a ver com o objeto da responsabilidade. A responsabilidade é o cuidado reconhecido como obrigação em relação a um outro ser, que se torna 'preocupação', quando há uma ameaça à sua vulnerabilidade. Mas o medo está presente na questão original, com o qual podemos imaginar que se inicie qualquer responsabilidade ativa: o que pode acontecer a ele, se eu não assumir a responsabilidade por ele? Quanto mais obscura a resposta, maior se delineia a responsabilidade. Quanto mais no futuro longínquo situa-se aquilo que se teme, quando mais distante do nosso bem-estar ou mal-estar, quanto menos familiar for o seu gênero, mais necessitam ser diligentemente mobilizadas a lucidez da imaginação e a sensibilidade dos sentidos. Torna-se necessária uma heurística* do medo capaz de investigar, que não só descubra e represente o novo objeto como tal, mas que tome conhecimento do interesse moral particular, ao ser interpretado pelo objeto, algo que jamais teria ocorrido antes."

*Heurística: método para chegar à resolução de problemas, à invenção ou à descoberta; arte ou ciência de inventar, de descobrir, hipótese provisória adotada para investigar os fatos. Fonte: Hans Jonas. O princípio da responsabilidade, ensaio de uma ética para a civilização tecnológica [adaptado]. Trad.: Marijane Lisboa, Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro. Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006, p. 351-352.

Item 2. 

Congresso internacional do medo 

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe, 
existe apenas o medo, nosso pai e nosso 
companheiro, 
o medo grande dos sertões, dos mares, dos
desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo
das igrejas, 
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos 
democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois 
da morte, 
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas
e medrosas. 

Fonte: Carlos Drummond de Andrade. Antologia poética. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 139.

Item 3.

Desenho sem título de Pawel Kuczynski, publicado em 15/10/16, no perfil do artista no Instagram.

Fonte: https://www.instagram.com/p/BLlzqbWj5Kj/. Acesso em 22/08/21. 

Gabarito:

Resolução:

TEMA: A influência do medo nas ações humanas 

A redação do ITA comumente aborda temas de natureza filosófica, convidando o candidato a dissertar de modo reflexivo sobre temáticas comuns à vida humana. Isso não significa que o texto deve ser puramente filosófico ou abstrato, sendo recomendado justamente associar o tema a fatos e fenômenos concretos e reais. 

O tema “a influência do medo nas ações humanas” já carrega, em sua formulação, o pressuposto de que existe uma relação causal determinante entre o medo e a ação — e isso deveria ser levado em conta no texto elaborado. De que modo, então, seria possível mobilizar argumentos a partir de cada item da coletânea? Observemos: 

 

Item 1: Texto Hans Jonas

A relação estabelecida entre responsabilidade, medo e esperança é dada por Hans Jonas por meio da discussão sobre a ação. A partir da explicação entre a relação entre cada elemento, sobretudo, entre responsabilidade e medo, refletimos sobre suas implicações e sobre sua intensidade, na medida em que o autor traça uma divisão entre o medo paralisante e o medo como impulso de ação. É a partir dessa divisão que fazemos o paralelo entre medo e responsabilidade, pois é ela que o modela e o restringe para que não se torne paralisante: o senso de responsabilidade, atrelado ao medo - essencial para a sobrevivência -, é o que permite a progressão da ação humana.

Item 2: Poema “Congresso Internacional do Medo” - Carlos Drummond de Andrade

Dando sequência à ideia que foi tratada no texto 1, em que o “medo” se relaciona diretamente com a responsabilidade, podemos ver uma discussão com pontos convergentes no poema de Drummond. No entanto, segundo o eu lírico do poema, esse sentimento apresenta uma posição ambígua que pode ser trabalhada pelo aluno. Quando é abordado do “o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, / cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas” vemos que há duas situações passíveis de serem observadas: a primeira, a partir de “o medo dos soldados”, que diz respeito ao medo que alguém sente dos soldados (por serem pessoas armadas, que a imagem é associada à violência e morte); e a segunda é a imagem que essas pessoas (soldados, mães, igrejas, ditadores e os democratas) sentem de situações adversas.

Assim, a perspectiva do medo que pode ser tratada pelo aluno é essa: o medo está em suspensão (sempre presente) em todas as relações e sentimentos humanos, mas ele pode ser visto tanto partindo de um lado (da pessoa que sente o medo de algo), quanto de outro lado (desse “algo” que pode sentir medo da pessoa).

Item 3: ilustração de Pawel Kuczynski

A imagem pode ser facilmente associada à ideia do medo que leva à imobilidade. O desconhecido, representado por aquilo que está além do muro, conduz o homem a um estado de medo que o faz consumir os recursos possíveis para superar o desafio (a escada) para manter-se em uma zona conhecida. Nesse sentido, o medo é representado como empecilho à ação, o que permite uma sobrevivência imediata, mas não a vida a longo prazo. 

 

Em resumo, seria possível, na redação, abordar o medo como uma ideia dupla, que influencia de maneira ambígua e paradoxal a ação humana: ao mesmo tempo que é capaz de gerar a ética diante do desconhecido, e permitir, assim, a ação, é um mecanismo de controle, limitação e inércia. 

Para exemplificar, o candidato poderia usar uma alusão histórica como a “corrida espacial”, ou os gestos científicos de “descoberta” do espaço. O medo foi um motor fundamental para o desenvolvimento dessas tecnologias, posto que a empreitada era completamente nova e desconhecida, e estavam em jogo tanto a esperança no progresso científico quanto a responsabilidade ético-política perante esse “grande passo para a humanidade”, como disse Neil Armostrong. 

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