(PUC-PR - 2010)
Segundo Rousseau, em seu hipotético “estado de natureza”, o homem é portador de duas faculdades naturais: a primeira delas é a liberdade e a segunda é a perfectibilidade, uma faculdade que, “com o auxílio das circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e se encontra, entre nós, tanto na espécie quanto no indivíduo”
(Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Primeira parte).
Sobre essa segunda faculdade, leia as assertivas que seguem:
I. Trata-se da capacidade do homem se aperfeiçoar física e espiritualmente.
II. No caso do aperfeiçoamento físico, o homem se aproximaria da realização de sua natureza; no caso do espiritual, ao contrário, ele se distanciaria cada vez mais do seu “estado natural”.
III. Como desdobramento da perfectibilidade, o homem acabaria por entrar num estado de infelicidade.
IV. Ao mesmo tempo em que a perfectibilidade ajuda o homem a vencer os obstáculos da natureza, empurra-o a uma situação de degradação.
Está(ão) correta(s):
Apenas as assertivas I e II.
Apenas as assertivas I, II e III.
Apenas a assertiva III.
Apenas a assertiva IV.
Todas as assertivas.
Gabarito:
Todas as assertivas.
Todas as afirmativas estão corretas.
A perfectibilidade diz respeito à capacidade humana de se aperfeiçoar, tanto o corpo (físico) quanto a mente (espiritual). Rousseau concebe a perfectibilidade como uma das duas faculdades naturais do ser humano, além da liberdade. O autor argumenta que esta qualidade específica incontestavelmente distingue o homem do animal: a faculdade de se aperfeiçoar, com a ajuda das circunstâncias, desenvolveu gradualmente todas as outras faculdades humanas; portanto, é presente tanto na espécie quanto no indivíduo. Por outro lado, compara que "um animal, ao cabo de alguns meses, é o que será o resto da vida, e sua espécie, ao cabo de mil anos, o que era no primeiro ano desses mil anos.” (Discurso sobre a Origem da Desigualdade, I)
O aperfeiçoamento físico se relaciona à natureza da espécie, ao ser humano enquanto "animal", às suas capacidades físicas e biológicas. O aperfeiçoamento espiritual, por outro lado, distancia o ser humano desse "estado natural", em que o homem está mais próximo do animal irracional: é um aperfeiçoamento que só pode ser desenvolvido a partir da capacidade de reflexão e raciocínio, exclusiva dos seres humanos.
À medida que vai se aperfeiçoando, o homem percebe que sempre há algo a melhorar e que nunca será perfeito; assim, encontra um estado de infelicidade com relação à existência. Nesse sentido, a perfectibilidade, da mesma forma que auxilia o ser humano a vencer os obstáculos da natureza, o coloca em uma situação de degradação, especialmente com relação ao espírito, que nunca vai se encontrar completo, perfeito e satisfeito.