(UECE - 2016 / adaptada)
João Gilberto Noll nasceu em Porto Alegre, no ano de 1946. Além de contista e romancista, fez incursões pela literatura infantil. Ganhou cinco prêmios Jaboti. João Gilberto Noll faz uma literatura caracterizada pela dissolução. Seus romances são concisos e apresentam enredos episódicos sustentados pela causalidade. Essa técnica difere da técnica narrativa que estabelece o elo entre o real e o ficcional. Os personagens de Noll são seres não localizados e alijados da experiência; muito embora lançados numa sucessão frenética de acontecimentos e passando por um sem número de lugares, o que vivem não se converte em saber, em consciência de ser e de estar no mundo.
Texto
Duelo antes da noite
1 No caminho a menina pegou uma pedra e
2 atirou-a longe, o mais que pôde. O menino
3 puxava a sua mão e reclamava da vagareza da
4 menina. Deviam chegar até a baixa noite a
5 Encantado, e o menino sabia que ele era
6 responsável pela menina e deveria manter uma
7 disciplina. Que garota chata, ele pensou. Se eu
8 fosse Deus, não teria criado as garotas, seria
9 tudo homem igual a Deus. A menina sentia-se
10 puxada, reclamada, e por isso emitia uns sons de
11 ódio: graças a Deus que eu não preciso dormir
12 no mesmo quarto que você, graças a Deus que
13 eu não vou morar nunca mais com você. Vamos
14 e não resmunga, exclamou o menino. [...]
(NOLL, João Gilberto. In: Romances e contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 690-692. Texto adaptado.)
O enunciado “A menina sentia-se puxada, reclamada, e por isso emitia uns sons de ódio: graças a Deus que eu não preciso dormir no mesmo quarto que você, graças a Deus que eu não vou morar nunca mais com você” (linhas 9-13) causa certo estranhamento ao leitor, isto é, surpreende-o, por conter algo que não é usual. Assinale a opção que aponta e justifica com correção e elementos textuais esse desvio da linguagem ordinária.
Em “emitia uns sons de ódio”, o enunciador ao atribuir sons ao ódio, ou sugerir que o ódio pode provocar sons, de certa forma reforça o teor de abstração desse sentimento que por sua própria natureza é abstrato. Esse trabalho com a língua intensifica a força da aversão que a menina acha sentir pelo menino.
Em “puxada, reclamada” o estranhamento decorre da coordenação de dois adjetivos, com regências diferentes. No caso do texto, essa surpresa torna-se mais intensa porque os dois adjetivos provocam o eco, que corresponde a uma rima. A referida assonância parece aumentar a repulsa da menina pelo menino
Em “graças a Deus que eu não vou morar nunca mais com você”, ameniza-se a força do não, com o emprego seguido de duas expressões negativas.
Há, no trecho, uma informação clara dos sentimentos da menina, mas também uma sugestão óbvia sobre o futuro dela.
Gabarito:
Em “puxada, reclamada” o estranhamento decorre da coordenação de dois adjetivos, com regências diferentes. No caso do texto, essa surpresa torna-se mais intensa porque os dois adjetivos provocam o eco, que corresponde a uma rima. A referida assonância parece aumentar a repulsa da menina pelo menino
a) Alternativa incorreta. A frase emitia sons de ódio dá a entender que os sons representavam o ódio, não personifica o sentimento, como afirma a alternativa.
b) Alternativa correta. A presença desses dois adjetivos faz com que haja uma maior intensidade nas ações, uma repetição próxima e brusca. Assim, a análise está correta.
c) Alternativa incorreta. Pelo contrário, a força do não é intensificada pela presença das duas expressões negativas.
d) Alternativa incorreta. Tal fato não causa estranhamento, mas faz parte da narração, da história contada. Além disso, essa alternativa não aponta nenhum desvio gramatical, como pede o enunciado.