(UEL - 2007)
“Há, porém, algo de fundamentalmente novo na maneira como os Gregos puseram a serviço do seu problema último – da origem e essência das coisas – as observações empíricas que receberam do Oriente e enriqueceram com as suas próprias, bem como no modo de submeter ao pensamento teórico e casual o reino dos mitos, fundado na observação das realidades aparentes do mundo sensível: os mitos sobre o nascimento do mundo.”
Fonte: JAEGER, W. Paideia. Tradução de Artur M. Parreira. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 197.
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a relação entre mito e filosofia na Grécia, é correto afirmar:
Em que pese ser considerada como criação dos gregos, a filosofia se origina no Oriente sob o influxo da religião e apenas posteriormente chega à Grécia.
A filosofia representa uma ruptura radical em relação aos mitos, representando uma nova forma de pensamento plenamente racional desde as suas origens.
Apesar de ser pensamento racional, a filosofia se desvincula dos mitos de forma gradual.
Filosofia e mito sempre mantiveram uma relação de interdependência, uma vez que o pensamento filosófico necessita do mito para se expressar.
O mito já era filosofia, uma vez que buscava respostas para problemas que até hoje são objeto da pesquisa filosófica.
Gabarito:
Apesar de ser pensamento racional, a filosofia se desvincula dos mitos de forma gradual.
c) Correta. Apesar de ser pensamento racional, a filosofia se desvincula dos mitos de forma gradual.
O surgimento da Filosofia na Grécia foi impulsionado pela formação da cidade-Estado grega, a pólis, na qual os cidadãos, em público, discutiam a política, buscando a melhor forma de organização da sociedade. Tal prática motivava o uso do raciocínio e a reflexão e, assim, passou a discutir-se não apenas a política, mas diversos outros aspectos, na medida em que surgiram indagações sobre a realidade e crescia a investigação. Assim foi surgindo o pensamento racional, que procurava explicar a realidade a partir de argumentos lógicos e racionalmente coerentes. Nesse sentido, é possível afirmar que a transição do mito para a filosofia ocorreu progressivamente, de forma gradual, à medida que as narrativas mítico-religiosas já não podiam explicar a realidade que o Logos investigava. Tanto a filosofia quanto o mito buscam explicar as origens do homem e do mundo, mas a diferença reside na forma como eles investigam a realidade e se expressam: enquanto o mito se fundamenta no divino e na espiritualidade, fazendo uso de elementos sobrenaturais e fantasiosos, a filosofia é baseada na lógica, na razão, na reflexão/contemplação e na argumentação. Os pré socráticos iniciaram essa busca a partir dos elementos da natureza.
a) Incorreta. Em que pese ser considerada como criação dos gregos, a filosofia se origina no Oriente sob o influxo da religião e apenas posteriormente chega à Grécia.
O texto afirma que a filosofia surge na Grécia com a incorporação de observações empíricas vindas do Oriente ("[...] as observações empíricas que receberam do Oriente e enriqueceram com as suas próprias [...]").
b) Incorreta. A filosofia representa uma ruptura radical em relação aos mitos, representando uma nova forma de pensamento plenamente racional desde as suas origens.
A filosofia não é plenamente racional desde suas origens, uma vez que sua busca por respostas se misturou, inicialmente, às explicações vindas dos mitos. Assim, não representou uma ruptura radical com relação a eles.
d) Incorreta. Filosofia e mito sempre mantiveram uma relação de interdependência, uma vez que o pensamento filosófico necessita do mito para se expressar.
Não há relação de interdependência entre mito e filosofia, mas antes uma complementação de um com relação ao outro. O pensamento filosófico não necessita do mito para se expressar: acrescenta às explicações divinas um caráter racional, que fundamenta um conhecimento lógico que esclarece a realidade de forma coerente, e não fantasiosa ou sobrenatural.
e) Incorreta. O mito já era filosofia, uma vez que buscava respostas para problemas que até hoje são objeto da pesquisa filosófica.
O mito, mesmo que buscasse as mesmas respostas que a filosofia, não se caracteriza como tal, uma vez que se utiliza da fantasia, do divino e do sobrenatural para explicar a realidade, em oposição ao conhecimento racional e lógico da filosofia.