(UEL - 2006)
“Se um objeto nos fosse apresentado e fôssemos solicitados a nos pronunciar, sem consulta à observação passada, sobre o efeito que dele resultará, de que maneira, eu pergunto, deveria a mente proceder nessa operação? Ela deve inventar ou imaginar algum resultado para atribuir ao objeto como seu efeito, e é obvio que essa invenção terá de ser inteiramente arbitrária. O mais atento exame e escrutínio não permite à mente encontrar o efeito na suposta causa, pois o efeito é totalmente diferente da causa e não pode, conseqüentemente, revelar-se nela.”
(HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: UNESP, 2004. p. 57-58.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o empirismo de David Hume, é correto afirmar:
O efeito de uma causa é assegurado pela demonstração racional que, a priori, seleciona as possíveis conseqüências decorrentes dos objetos empiricamente aprendidos.
A causa revela pela sua própria natureza, independentemente da experiência e da razão, os efeitos que é capaz de produzir.
A razão é apta para relacionar as causas aos seus respectivos efeitos, uma vez que a vinculação entre causa e efeito é assegurada pelo princípio de identidade.
A descoberta do efeito de um objeto ocorre mediante a experiência, que assegura uma relação entre a causa e o efeito, porém desconhece a necessidade que os vinculam.
A conexão entre causa e efeito é fundamentada pela indução, a partir da constatação de que as observações passadas ocorrerão de forma semelhante no futuro.
Gabarito:
A descoberta do efeito de um objeto ocorre mediante a experiência, que assegura uma relação entre a causa e o efeito, porém desconhece a necessidade que os vinculam.
d) Correta. A descoberta do efeito de um objeto ocorre mediante a experiência, que assegura uma relação entre a causa e o efeito, porém desconhece a necessidade que os vinculam.
O filósofo situa-se na perspectiva empirista, e, por isso, não acredita que haja conceitos inatos na mente, isto é, nenhuma ideia a priori, pois todas as nossas ideias, para Hume, são adquiridas por meio da experiência sensorial. Quando Hume vai questionar a problemática da causa e efeito, está colocando essa crítica contra uma escola de pensamento, o racionalismo — oposto ao empirismo; o racionalismo, por sua vez, defende a existência de ideias inatas e necessárias, como a matemática.
O conceito de causa e efeito é construído a partir de uma noção apriorística da experiência; explicando melhor, julgamos as nossas experiências, que algo causa outro algo, e que aquilo é causado por isto, por meio de uma noção racional que é anterior à experiência. Toda noção, por sua vez, é uma abstração, ou seja, é algo que é sempre necessário e universal; explicando, a relação de causa e efeito, por ser uma noção, sempre irá ocorrer, ou seja, o sol (causa) sempre irá aquecer uma pedra (efeito). Isso que eu expliquei é afirmado pela visão racionalista.
O que o Hume quer fazer é questionar justamente essa ideia, afirmando que a noção adquirida de causa e efeito não foi da razão pura, mas de uma experiência da realidade. Porém, ele entende que, pela experiência, não podemos determinar se um conceito é universal e necessário, que irá ocorrer sempre; por exemplo, pela experiência somente, não consigo afirmar que o sol irá aquecer para sempre, no futuro, a pedra. Então, numa posição bem radical, ele vai afirmar que toda noção de relação de causa e efeito é apenas um hábito da mente por ver sempre a mesma coisa ocorrendo.
a) Incorreta. O efeito de uma causa é assegurado pela demonstração racional que, a priori, seleciona as possíveis conseqüências decorrentes dos objetos empiricamente aprendidos.
A causa e efeito não podem ser assegurados pela demonstração racional.
b) Incorreta. A causa revela pela sua própria natureza, independentemente da experiência e da razão, os efeitos que é capaz de produzir.
A causa não pode revelar por sua própria natureza os seus efeitos.
c) Incorreta. A razão é apta para relacionar as causas aos seus respectivos efeitos, uma vez que a vinculação entre causa e efeito é assegurada pelo princípio de identidade.
A razão não é apta para relacionar as causas aos seus respectivos efeitos, tampouco o princípio de identidade, como um conceito necessário e universal (algo apriorístico) não pode ser determinado para estabelecer essa relação.
e) Incorreta. A conexão entre causa e efeito é fundamentada pela indução, a partir da constatação de que as observações passadas ocorrerão de forma semelhante no futuro.
A conexão entre causa e efeito não é fundamentada pela indução, pois não pode-se provar que as observações passadas ocorrerão de forma semelhante no futuro.