(UEL - 2018)
Leia o texto a seguir.
Rochedos audazes sobressaindo-se por assim dizer ameaçadores, nuvens carregadas acumulando-se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões em sua inteira força destruidora, furacões com a devastação deixada para trás, o ilimitado oceano revolto, uma alta queda d’água de um rio poderoso etc. tornam nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação com o seu poder. Mas o seu espetáculo só se torna tanto mais atraente quanto mais terrível ele é, contanto que, somente, nos encontremos em segurança; e de bom grado denominamos estes objetos sublimes, porque eles elevam a fortaleza da alma acima de seu nível médio e permitem descobrir em nós uma faculdade de resistência de espécie totalmente diversa, a qual encoraja a medir-nos com a aparente onipotência da natureza.
(KANT, I. Crítica da Faculdade do Juízo. Trad. Antonio Marques e Valé- rio Rohden. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. p. 107.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o juízo de gosto e o sublime na estética moderna, particularmente em Kant, assinale a alternativa correta.
O conceito de beleza, resultante da atividade do entendimento, permite apreender o sentido dos eventos ameaçadores, protegendo o sujeito da destruição.
Os elementos da natureza compõem o núcleo da teoria kantiana do juízo de gosto, constituindo, também, parte importante da sua concepção de gênio.
Os eventos naturais de proporções ameaçadoras provocam nosso interesse quando nos situam na possibilidade iminente de sermos por eles destruídos.
O sublime não está contido em nenhuma coisa da natureza, e sim em nosso ânimo, quando nos tornamos conscientes de nossa superioridade à natureza.
A faculdade de resistência à dimensão ameaçadora e destruidora dos eventos naturais de grande magnitude é a faculdade produtora do belo.
Gabarito:
O sublime não está contido em nenhuma coisa da natureza, e sim em nosso ânimo, quando nos tornamos conscientes de nossa superioridade à natureza.
d) Correta. O sublime não está contido em nenhuma coisa da natureza, e sim em nosso ânimo, quando nos tornamos conscientes de nossa superioridade à natureza.
Kant, em Crítica de Faculdade do Juízo, explicita a relação entre o sublime, as coisas de natureza e o homem da seguinte forma: “Portanto, a sublimidade não está contida em nenhuma coisa da natureza, mas só em nosso ânimo, na medida em que podemos ser conscientes de ser superiores à natureza em nós e através disso também à natureza fora de nós”. (KANT, Crítica de Faculdade do Juízo, p. 110).
a) Incorreta. O conceito de beleza, resultante da atividade do entendimento, permite apreender o sentido dos eventos ameaçadores, protegendo o sujeito da destruição.
Não existe conceito de beleza: conceitos são fruto da atividade do entendimento, enquanto o juízo do belo se relaciona ao que é aprazível, de forma subjetiva e não conceitual. Além disso, não é o conceito de beleza que protege o indivíduo da destruição, mas sua própria percepção do perigo.
b) Incorreta. Os elementos da natureza compõem o núcleo da teoria kantiana do juízo de gosto, constituindo, também, parte importante da sua concepção de gênio.
Nem a teoria do juízo de gosto e nem a do gênio, de Kant, são constituídas pelos elementos da natureza. A natureza é abordada pelo autor como algo passível de entendimento através da racionalidade. Faz uma rasa analogia com a teleologia (sistema organizado com relação a fins), em que aponta que a natureza é "como se fosse" organizada conforme fins.
c) Incorreta. Os eventos naturais de proporções ameaçadoras provocam nosso interesse quando nos situam na possibilidade iminente de sermos por eles destruídos.
Eventos naturais de proporções ameaçadoras despertam o interesse humano enquanto estão a uma distância segura, sem possibilidade real de destruição. Essa é a diferença entre o terror, em que há perigo iminente, e o sublime, que existe sob a garantia de segurança.
e) Incorreta. A faculdade de resistência à dimensão ameaçadora e destruidora dos eventos naturais de grande magnitude é a faculdade produtora do belo.
Não existe uma faculdade produtora do belo, mas um livre jogo entre as diferentes faculdades que provocam o sentimento da aprazibilidade, da beleza, subjetivo e individual. Além disso, frente à ameaça dos eventos naturais de grandes proporções, a faculdade imaginativa do ser humano faz o reconhecimento de sua própria força enquanto ente racional, reforçada pelo reconhecimento da magnitude dos fenômenos da natureza e sua capacidade de "controle" sobre ela. A natureza aparenta possuir uma onipotência à qual o ser humano se equipara, na medida em que admira o belo existente na destruição dos eventos naturais sem estar sob ameaça dos mesmos.