(CEPERJ - 2011)
Em sua Ética, Spinoza explora o importante tema da servidão, especialmente na quarta parte do livro. Já na primeira frase dessa quarta parte da Ética, Spinoza esclarece o que entende por servidão, que é então definida como impotência:
divina para organizar e gerenciar os afetos.
divina para organizar e gerenciar as razões.
humana para regular e refrear os afetos.
humana para regular e refrear as razões.
humana para aniquilar e exterminar os afetos.
Gabarito:
humana para regular e refrear os afetos.
Para resolver essa questão, precisamos primeiramente entender como Spinoza compreende a essência humana e os afetos.
A essência humana em Spinoza, o que nos faz sermos nós mesmos, não é o corpo e nem a nossa mente, mas sim, a conjunção entre o corpo e a mente, a junção entre esses dois modos determinados. Portanto, a essência humana é formada pelo conatus, o esforço que me faz ser aquilo que sou de perseverar no meu próprio ser. Nesse sentido, a essência humana é uma atividade inata aos indivíduos de perseverar. Perseverar no sentido de como duramos no tempo, na vida, como mediamos nossa relação com o mundo. E o que media nossa relação com o mundo para o autor? Os afetos. O desejo seria o primeiro e mais basilar dos afetos, sendo ele a versão afetiva do conatus, ou seja, o desejo também é inato a nós. Portanto, o ser humano para Spinoza, formalmente falando, é esse modo finito da substância, junção entre mente e corpo que deseja. Todo ser humano é, portanto, uma coisa desejante.
Se todo ser humano é uma coisa desejante, quase que o desejo em si, ele já é, necessariamente, algo do campos dos afetos. O modus operandi humano, segundo o autor, seria buscar a alegria pra sanar uma tristeza. Ou seja, os afetos seriam de nível ontológico do ser humano (lembrando que ontologia é o campo da filosofia que trata da realidade, natureza e existência dos entes). Portanto, ontologicamente somos do campo dos afetos, somos em essência afetivos, desejantes e desejáveis, sendo então impossível desviar dos afetos pois eles são a forma como nos relacionamos com o mundo. Pensando que a nossa essência é se esforçar para perseverar no tempo, significa que parte daquilo que nós somos é lidar com os afetos, sermos afetados e afetar, portanto, é inescapável de nós.
Agora que definimos esses duas partes essenciais, podemos partir pra uma discussão mais próxima da questão e vamos nos valer de um exemplo pra explicar a alternativa correta.
Suponhamos que João namora Maria, e Maria termina com João. Maria afetou João com o afeto da tristeza. Se João não tiver capacidade emocional para lidar com isso, ele não vai conseguir refrear essa tristeza. Não conseguindo refreá-la, João vai passar de um nível de perfeição maior para um menor, e esse afeto, segundo Spinoza, vai tomar o ser de João dependendo do tamanho dele. Por isso ele usa a palavra servidão: João passará a ser subjugado pelo afeto que veio de fora e te afetou.
Portanto, a servidão para Spinoza é uma impotência do indivíduo, portanto, humana, para regular e refrear os afetos, como consta na alternativa C.