(Ufjf-pism 1 2015)
Texto I
A ação sob um novo olhar
O cineasta Luc Besson é catalogado como o diretor francês que mais se parece com um profissional americano de Hollywood, por seus longas serem carregados de ação explosiva, além de quase sempre protagonizados por anti-heróis típicos de produções da terra do Tio Sam. A presença de astros consagrados reforça essa definição – basta lembrar filmes icônicos como Nikita (que virou até seriado nos EUA), O profissional, O quinto elemento e as franquias Carga explosiva e Busca implacável. A diferença de Besson está no modo inteligente como ele insere, num peculiar cinema comercial, arte e reflexão sem parecer picaretagem, conseguindo atrair a simpatia de diferentes públicos.
Lucy é o mais novo projeto com essa sua marca: a estrela Scarlett Johansson surge numa história que, num primeiro momento, lembra um filme de super-herói. Scarlett faz uma mulher acidentalmente envolvida na negociação de uma droga experimental, que, ao entrar em sua circulação, faz com que ela aumente a utilização de seu cérebro em 100%. A turbinada resolve então procurar um pesquisador (Morgan Freeman) do assunto, ao mesmo tempo em que um traficante está à sua procura.
Com o filme colocado dessa forma, Lucy parece uma prima próxima da personagem Viúva Negra, também interpretada por Scarlett na série de filmes com super-heróis da Marvel – igualmente com cenas eletrizantes de luta. Mas Lucy (no original) também faz uma reflexão em torno de questões como evolução, metafísica e tempo. Percebe-se que Besson se diverte pelo jeito como desenvolve a narrativa: a cada estágio de transformação de Lucy, o diretor intercala as explicações científicas do tal pesquisador. Tudo de maneira a sustentar o conceito por trás da trama, desenvolvido com extrema habilidade e num ritmo propositalmente acelerado com objetivo de dar credibilidade ao improvável.
A AÇÃO sob um novo olhar. Disponível em: <http://rioshow.oglobo.globo.com/cinema/eventos/criticas-profissionais/lucy-11057.aspx>. Acesso em: 16 de agosto de 2014.
Texto II
Lucy
Entrevistamos especialista para desvendar o mito cerebral
Doutor em psicobiologia nos ajuda a conhecer a verdade por trás da trama
por Rafael Sanzio
Lucy, filme de Luc Besson com Scarlett Johansson como protagonista, estreia […] no dia 28 de agosto nos cinemas brasileiros. O filme aborda o mito de que o ser humano só usa 10% de seu cérebro e que, através de uma droga, a personagem principal começa a desenvolver todo o potencial cerebral. Depois de conferirmos o trailer, o Fique Ligado quis saber a verdade sobre toda essa história. Entrevistamos Nelson Torro Alves, doutor em psicobiologia na USP e membro fundador do Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento, para sabermos mais sobre o potencial cerebral, já que o professor de 39 anos também é membro permanente do Programa de Pós-graduação em Neurociência Cognitiva e Comportamento da Universidade Federal da Paraíba – o cara certo para tirar nossas dúvidas! [...]
Na trama do filme Lucy é dito que nós, humanos, somos capazes de utilizar de nosso cérebro. Isso é verdade ou é um mito? Ficamos estacionados na porcentagem ou podemos aumentá-la de forma natural?
Nelson Torro: Definitivamente, é um mito. Em primeiro lugar, não há evidências científicas que sustentem a afirmação de que usamos um dado limite do cérebro (p. ex. ou Existem várias complicações nessa suposição. Por exemplo, como podemos medir com relativa certeza quanto do cérebro está sendo usado? É um problema também do ponto de vista biológico: por que razão teríamos um cérebro tão potente e só usaríamos parte de nossos recursos? O cérebro, tal como funciona, já é muito dispendioso para o organismo, consumindo cerca de de toda a energia corporal. Além disso, os organismos não teriam vantagens adaptativas desenvolvendo um sistema tão complexo, mas que permanecesse inutilizado.
Há registros de uma porcentagem maior que a média?
Nelson Torro: O grande problema é como medir o uso do cérebro. Não existem bons parâmetros para isso.
Lucy vai ganhando novas habilidades à medida que aumenta a capacidade cerebral. Com ela consegue controlar as células do corpo. Com ela controla a matéria e com ela pode controlar pessoas. O que há de verdade nisso e o que há de exagero?
Nelson Torro: Pelo que sabemos atualmente, tudo é um exagero. No máximo, um cérebro mais “potente” tornaria a pessoa mais inteligente, com melhor memória ou mais atenta.
Há drogas que aumentam o potencial cerebral da pessoa? Como isso é possível?
Nelson Torro: Existem drogas que parecem aumentar as funções atencionais e a concentração, tal como o metilfenidato, que é o princípio ativo dos medicamentos Ritalina e Concerta, usados no tratamento de crianças com o Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade. Mesmo em adultos saudáveis, o medicamento parece ter um efeito benéfico sobre o raciocínio e aprendizado. No entanto, essa é uma questão polêmica, pois não sabemos quais são as consequências a longo prazo do uso desses medicamentos, que podem afetar a dinâmica do funcionamento cerebral. Seria muito recomendada uma droga tradicional de aumento do potencial cerebral, a cafeína, presente no café e guaraná, por exemplo. O café promove o alerta e estimula as funções cerebrais, além disso, em doses moderadas, traz outros benefícios à saúde.
Na maioria das cenas de Lucy é como se ela ganhasse superpoderes, contudo deve haver um lado ruim nesse uso exagerado do cérebro. Quais as desvantagens do uso em demasia do nosso cérebro? Aguentaríamos o tranco, tanto fisicamente como psicologicamente?
Nelson Torro: É bem possível que houvesse consequências negativas, caso isso ocorresse.
Existem muitos relatos de pessoas com capacidade de memória extraordinária, mas que não se tornaram necessariamente mais inteligentes ou mais bem-sucedidas por conta disso.
Com os estudos atuais dessa área, acredita que iremos descobrir algum dia o verdadeiro potencial de nosso cérebro?
Nelson Torro: Acho que esse potencial já é conhecido. Nosso cérebro é muito bom, flexível o bastante para aprendermos coisas novas durante toda a vida. A exemplo da personagem do filme, podemos aprender também chinês; não em uma hora, mas podemos aprender. Podemos também adquirir novas habilidades graças à plasticidade cerebral, incluindo habilidades motoras, tal como esporte ou dança, conhecimentos gerais (matemática, história, literatura) e habilidades musicais, por exemplo.
Vendo o trailer do filme, qual a porcentagem de veracidade dos poderes adquiridos pelo cérebro de Lucy?
Nelson Torro: Nesse caso, é mais fácil quantificar: (risos)
Em sua opinião, o que poderemos fazer ao alcançarmos da nossa capacidade cerebral?
Nelson Torro: Sempre vale a pena investirmos no aprendizado de novas habilidades e conhecimentos. Torna a vida mais mental mais rica.
ALVES, Nelson Torro. Entrevista. Disponível em: <http://www.fiqueligado.com.br/single-noticias/>. Acesso em: 16 de agosto de 2014
Tanto o Texto I quanto o Texto II afirmam que
o que se passa no filme é meramente ficção.
o filme traz questões sobre o tempo e o cérebro.
o filme apresenta um conceito cientificamente provável.
pode haver consequências negativas no uso exagerado do cérebro.
há drogas que nos permitem alcançar 100% da nossa capacidade cerebral.
Gabarito:
o filme traz questões sobre o tempo e o cérebro.
[B]
Ambos os textos afirmam que o filme “Lucy” apresenta questões sobre o tempo e o cérebro.
Texto I:
“Scarlett faz uma mulher acidentalmente envolvida na negociação de uma droga experimental, que, ao entrar em sua circulação, faz com que ela aumente a utilização de seu cérebro em 100%.” / “Mas Lucy (no original) também faz uma reflexão em torno de questões como evolução, metafísica e tempo.”
Texto II:
“O filme aborda o mito de que o ser humano só usa 10% de seu cérebro e que, através de uma droga, a personagem principal começa a desenvolver todo o potencial cerebral.”
A alternativa B, dessa forma, responde corretamente à questão.