(UFLA - 2000)
"A ORDEM É SE ASSUMIR"
Artur da Távola
As expressões ou palavras que entram na moda erudita das cidades são muito significativas. Mas se massificam tanto pelo uso abusivo, que se acaba ficando com o ouvido raivoso de tanto as escutar.
Observo nas minhas próprias crônicas a insistência com algumas palavrinhas da moda que se tornaram chatas. Uma que uso muito é "mobilizar". Outra é "empatia". Uma terceira, "feedback". Tenho um amigo que, depois de descobrir o que quer dizer "feedback", a utiliza até para comprar um cachorro-quente naquelas carrocinhas da praia. Já está chamando o troco de "feedback"...
O mais engraçado dessas palavras é que todo mundo sabe mais ou menos o que significam, mas ninguém lhes conhece o sentido exato. Por isso ganham tanta notoriedade. A partir do momento em que uma palavra pode significar várias coisas, estamos salvos. É só usá-la e dar a explicação que se quiser.
Outra em grande evidência é "gratificar". Vinda da psicanálise e atingindo as normas cultas do falar urbano-zona-sul-carioca, portanto ganhando jornais, artistas e televisão e, por aí, o grande público, "gratificar" serve para tudo.
"Fiquei muito gratificada com o que você disse", diz a menininha, saborosa de doer, frente a qualquer coisa. "Ah - diz o intelectual - isso é altamente gratificante." E tome gratificação a torto e a direito. E a gente escutando. Gratificação pra cá, gratificação prá lá, mas gratificação no duro, aquele tutu que sempre achamos merecer, essa que é a boa, nunca vem.
"Eu fui, sabe, até a praia. Lá naquela duna, sabe, eu vi aquele cara, sabe, aí, sabe, ele estava escutando o rádio de pilha, sabe, naquela música, sabe, na qual, sabe, eu me amarro, sabe."
Este "sabe" é dito mole e escorregadamente como muleta respiratória ou pausa, sabe, para encontrar a palavra adequada que não vem nunca ...
Também em grande destaque, neste outono, o "assumir". Está todo mundo "se assumindo" ou "assumindo" algo. É um tal de "se assumir" que parece que antes a pessoa não existia, ou era um "cargo" vago até que resolveu "assumi-lo", assumindo-se. O que há de pessoas vagas por aí tentando assumir-se, assume assombrosas proporções. O pior é quando malandro assume o que sempre temeu e aí requebra de vez ...
"Assume-se" tudo: a carreira, a culpa, a confusão, a neurose. Já vi mães jovens que um belo dia descobrem a pólvora:
— "Sabe, resolvi assumir os meus filhos." Espantado, pergunto: - "Por quê? Você se separou e agora tem a seu cargo a manutenção dos meninos?" - "Não - responde a princesa - separei nada. É que descobri que ainda não tinha assumido a maternidade e resolvi assumir os meus filhos. Sabe, criança é um barato."
De tanto ouvir essas coisas (e até escrevê-las em meu sugante trabalho de colunista diário), sinto vontade de compor o samba-modelo da Zona Sul:
"Gratifiquei meu feedback
assumindo minha empatia.
Mobilizei minha neurose
para não entrar em entropia.
Inserido no contexto, sabe,
devolvi a gratificação
mas vi ser problema estrutural
e angustiado repudiei a frustração."
Não haverá um compositor bondoso e baiano (também é moda) para botar música de samba ou rock nesta letra-modelo da atual temporada? O estribilho seria assim:
"gratificação, gratificação,
com você eu derroto a inflação." (bis)
"O lado negativo da gíria é que ela nos oferece um tremendo aspecto de imprecisão. Acontece com ela um fenômeno chamado polissemia, que consiste na multiplicidade de significados."
(Aurélio Buarque de Holanda, dicionarista)
Essa mesma opinião está expressa no seguinte trecho do texto:
"Observo nas minhas próprias crônicas a insistência com algumas palavrinhas da moda que se tornaram chatas."
"O mais engraçado dessas palavras é que todo mundo sabe mais ou menos o que significam, mas ninguém lhes concede o sentido exato. Por isso ganham tanta notoriedade. A partir do momento em que uma palavra pode significar várias coisas, estamos salvos."
"Gratificação pra cá, gratificação pra lá, mas gratificação no duro, aquele tutu que sempre achamos merecer, essa que é a boa, nunca vem."
"De tanto ouvir essas coisas (e até escrevê-las em meu sugante trabalho de colunista diário), sinto vontade de compor o samba-modelo da Zona Sul (...)"
"As expressões ou palavras que entram na moda erudita das cidades são muito significativas. Mas se massificam tanto pelo uso abusivo, que se acaba ficando com o ouvido raivoso de tanto as escutar."
Gabarito:
"O mais engraçado dessas palavras é que todo mundo sabe mais ou menos o que significam, mas ninguém lhes concede o sentido exato. Por isso ganham tanta notoriedade. A partir do momento em que uma palavra pode significar várias coisas, estamos salvos."
a) Alternativa incorreta. No trecho referido, o autor fala sobre palavras que estão em "tendência", o que acaba esvaziando seus significados.
b) Alternativa correta. A frase fala justamente sobre a eficácia do uso de palavras com mais de um significado (isto é, que carregam polissemia).
c) Alternativa incorreta. O trecho não apresenta nenhuma das ideias da frase do enunciado.
d) Alternativa incorreta. O trecho não apresenta nenhuma das ideias da frase do enunciado.
e) Alternativa incorreta. O trecho fala sobre palavras que são muito utilizadas seguindo uma "tendência", não sobre gírias ou polissemia.