(UFU 1ª fase Janeiro de 2004)
No escrito publicado postumamente, Regras para a orientação do espírito, Descartes fez o seguinte comentário:
Mas, toda vez que dois homens formulam sobre a mesma coisa juízos contrários, é certo que um ou outro, pelo menos, esteja enganado. Nenhum dos dois parece mesmo ter ciência, pois, se as razões de um homem fossem certas e evidentes, ele as poderia expor ao outro de maneira que acabasse por lhe convencer o entendimento..
DESCARTES, René. Regras para a orientação do espírito. Trad. de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 6-7.
Para alcançar a verdade das coisas, isto é, o conhecimento certo e evidente, é necessário um método composto de regras muito simples que evitem os enganos e as opiniões prováveis. Segundo Descartes, somente duas ciências podem auxiliar na fundamentação do método para a investigação da verdade, são elas:
teologia e filosofia.
mecânica e física.
fisiologia e filologia.
aritmética e geometria.
Gabarito:
aritmética e geometria.
Em "Regras para a orientação do espírito", Descartes elabora 21 regras para guiar o comportamento do investigador científico. Foi uma obra postumamente publicada, de forma que ficou incompleta quanto à especificação do funcionamento das regras.
As premissas iniciais são as regras de I a IV: afirmam que o conhecimento verdadeiro só pode ser alcançado através de um método que busca o que pode ser conhecido, visando emitir juízos sólidos e verdadeiros e evitando tautologias (sem reafirmar o que já foi dito).
As regras de atuação inicial (de V a VIII) apontam que o pensamento deve ser organizado a partir de coisas mais simples, identificando e enumerando todas as relações existentes entre elas. O que não for intuído claramente deve ser aprofundado.
A regra de treinamento do espírito, IX, aponta que o espírito, a partir das verdades encontradas, deve se acostumar a ver e buscá-las.
As regras de atuação secundária (de X a XII) definem que, além de conhecer o que já foi dito anteriormente, é necessário que o investigador, que procura a verdade e o conhecimento, destrinche ao máximo aquilo que intuiu e deduziu, buscando reter tudo o que puder com os recursos disponíveis.
As regras de catalogação e esquematização (de XIII a XVI) determinam que o que foi intuído, deduzido e descoberto deve ser esquematizado e enumerado a partir de coisas mais simples, utilizando imagens que facilitem a compreensão.
As regras de conclusão (de XVII a XXI) se referem à resolução de problemas encontrados nos passos anteriores, que envolve a associação das dificuldades umas às outras (relacionar as dificuldades).
Esta obra, no entanto, foi posteriormente descartada pelo autor, que sintetizou as regras em quatro e as apresentou em O Discurso do Método. Mesmo assim, foi mantido o rigor técnico que Descartes exigia para a produção do conhecimento e para o alcance da verdade, e é clara a tendência matemática em seus raciocínios.
Em um trecho de Discurso do Método, o autor explica o por quê de fundamentar seu método na Aritmética e na geometria, e não em outras ciências, como a física.
"A Física, a Astronomia, a Medicina e todas as outras ciências dependentes da consideração das coisas compostas são muito duvidosas e incertas; mas que a Aritmética e a Geometria e as outras ciências desta natureza, que não senão de coisas muito simples e muito gerais, sem cuidarem muito se elas existem ou não na natureza, contem alguma coisa de certo e indubitável. Pois, quer que eu esteja acordado, quer esteja dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quatro lados; e não parece possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade ou incerteza." (1979, p. 87)