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Questão 14

UNESP 2012
Português

(UNESP - 2012 - 1a Fase)

Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta e cidadão

 

A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.

Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.

De repente não tinha pai.

No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança

Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância

Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino

Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna

Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta

De Augusto geralmente procrastinava a tarde.

Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho

Rangia nos trilhos a muitas praias de distância...

Dizíamos: “Ê-vem meu pai!”. Quando a curva

Se acendia de luzes semoventes*, ah, corríamos

Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes

Mas ser marraio** em teus braços, sentir por último

Os doces espinhos da tua barba.

Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência

Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura

De quem se deixou ser. Teus ombros possantes

Se curvavam como ao peso da enorme poesia

Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos

Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios

Para o cotidiano (e frequentemente o binóculo

Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras

Mirando o mar). Dize-me, meu pai

Que viste tantos anos através do teu óculo de alcance

Que nunca revelaste a ninguém?

Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta [exausto no último lance da maratona.

Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais

Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde

A um gesto do mar. A noite se fechava

Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.

Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar

Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios

Buscavam ilhas, outras ilhas... — as imaculadas, inacessíveis

Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar

E trazer — depositar aos pés da amada as joias fulgurantes

Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles

Dos mais provectos***. Muitas vezes te vi, comandante

Comandar, batido de ventos, perdido na fosforência

De vastos e noturnos oceanos

Sem jamais.

Deste-nos pobreza e amor.

A mim me deste

A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar

Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor

Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas

Teu amor inventou. Financiaste uma lancha

Movida a água: foi reta para o fundo. Partiste um dia

Para um brasil além, garimpeiro sem medo e sem mácula.

Doze luas voltaste. Tua primogênita — diz-se —

Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.

(Vinicius de Moraes. Antologia poética. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1974, p. 180-181.)

 

(*) Semovente: “Que ou o que anda ou se move por si próprio.”

(**) Marraio: “No gude e noutros jogos, palavra que dá, a quem primeiro a grita, o direito de ser o último a jogar.

(***) Provecto: “Que conhece muito um assunto ou uma ciência, experiente, versado, mestre.”

(Dicionário Eletrônico Houaiss)

 

Quando a curva / Se acendia de luzes semoventes, Esta imagem significa, nos versos em que surge,

A

o mar ao longe refletia as luzes da cidade.

B

o bonde se aproximava todo iluminado.

C

a lua despontava no horizonte, trêmula e brilhante.

D

as luzes dos postes se acendiam, ao anoitecer.

E

a curvatura do céu todo estrelado aparecia à noite.

Gabarito:

o bonde se aproximava todo iluminado.

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