(UNESP - 2013 - 1a fase)
Os donos da comunicação
Os presidentes, os ditadores e os reis da Espanha que se cuidem porque os donos da comunicação duram muito mais. Os ditadores abrem e fecham a imprensa, os presidentes xingam a TV e os reis da Espanha cassam o rádio, mas, quando a gente soma tudo, os donos da comunicação ainda tão por cima. Mandam na economia, mandam nos intelectuais, mandam nas moças fofinhas que querem aparecer nos shows dos horários nobres e mandam no society que morre se o nome não aparecer nas colunas.
Todo mundo fala mal dos donos da comunicação, mas só de longe. E ninguém fala mal deles por escrito porque quem fala mal deles por escrito nunca mais vê seu nome e sua cara nos “veículos” deles. Isso é assim aqui, na Bessarábia e na Baixa Betuanalândia. Parece que é a lei. O que também é muito justo porque os donos da comunicação são seres lá em cima. Basta ver o seguinte: nós, pra sabermos umas coisinhas, só sabemos delas pela mídia deles, não é mesmo? Agora vocês já imaginaram o que sabem os donos da comunicação que só deixam sair 10% do que sabem?
Pois é; tem gente que faz greve, faz revolução, faz terrorismo, todas essas besteiras. Corajoso mesmo, eu acho, é falar mal de dono de comunicação. Aí tua revolução fica xinfrim, teu terrorismo sai em corpo 6 e se você morre vai lá pro fundo do jornal em quatro linhas.
(Millôr Fernandes. Que país é este?, 1978.)
No último período do texto, a discrepância dos possessivos teu e tua (segunda pessoa do singular) com relação ao pronome de tratamento você (terceira pessoa do singular) justifica-se como
possibilidade permitida pelo novo sistema ortográfico da língua portuguesa.
um modo de escrever característico da linguagem jornalística.
emprego perfeitamente correto, segundo a gramática normativa.
aproveitamento estilístico de um uso do discurso coloquial.
intenção de agredir com mau discurso os donos da comunicação.
Gabarito:
aproveitamento estilístico de um uso do discurso coloquial.
[D]
a) Incorreta. O uso pronominal não está ligado à representação ortográfica, e sim morfossintática. Ademais, a gramática normativa vigente ainda não abona construções com pronomes discrepantes.
b) Incorreta. A linguagem jornalística tem como característica o uso de uma linguagem mais formal e impessoal, algo que não se percebe ao longo do texto e nem no trecho específico, em que o emprego de pronomes pessoais já configura uma fuga aos padrões dessa linguagem.
c) Incorreta. O uso de pronomes em pessoas do discurso diferentes (2ª e 3ª) não está de acordo com a gramática normativa, que pede para que se mantenha uniformidade no tratamento e na referência (você - seu/sua x tu - teu/tua).
d) Correta. O discurso coloquial permite o uso de você para ocupar o lugar de um pronome de segunda pessoa, ainda que conjugado em 3ª pessoa. No texto, esse uso informal corrobora com o tom de deboche e ironia, e reporta à linguagem acessível e comunicativa pretendida pelo autor, que simula, em muitos momentos, a fala em sua escrita.
e) Incorreta. Ainda que os "donos da comunicação" sejam alvo de crítica, o uso dos pronomes em questão não tem nenhuma relação com esse alvo. Seus referentes são, inclusive, as pessoas que têm coragem de desafiar, falando mal desses grandes monopolistas.