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Questão 51008

UNESP 2015
Português

(UNESP - 2015 - 2 FASE) 

No cemitério de S. Benedito


      Em lúgubre recinto escuro e frio,
     Onde reina o silêncio aos mortos dado,
     Entre quatro paredes descoradas,
     Que o caprichoso luxo não adorna,
5   Jaz da terra coberto humano corpo,
     que escravo sucumbiu, livre nascendo!
     Das hórridas cadeias desprendido,
     Que só forjam sacrílegos tiranos,
     Dorme o sono feliz da eternidade.
10 Não cercam a morada lutuosa
     Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
     Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
     Pesada laje de espartano mármore,
     Somente levantado em quadro negro
15 Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
     — Descansam n’este lar caliginoso1
     O mísero cativo, o desgraçado!...
     Aqui não vem rasteira a vil lisonja
     Os feitos decantar da tirania,
20 Nem ofuscando a luz da sã verdade
     Eleva o crime, perpetua a infâmia.
     Aqui não se ergue altar ou trono d’ouro
     Ao torpe mercador de carne humana.
     Aqui se curva o filho respeitoso
25 Ante a lousa materna, e o pranto em fio
     Cai-lhe dos olhos revelando mudo
     A história do passado. Aqui nas sombras
     Da funda escuridão do horror eterno,
     Dos braços de uma cruz pende o mistério,
30 Faz-se o cetro2 bordão3, andrajo a túnica,
     Mendigo o rei, o potentado4 escravo!

(Primeiras trovas burlescas e outros poemas, 2000.)

1 caliginoso: muito escuro, tenebroso.
2 cetro: bastão de comando usado pelos reis.
3 bordão: cajado grosso usado como apoio ao caminhar.
4 potentado: pessoa muito rica e poderosa.

 

Doze anos de escravidão


Houvera momentos em minha infeliz vida, muitos, em que o vislumbre da morte como o fim de sofrimentos terrenos — do túmulo como um local de descanso para um corpo cansado e alquebrado — tinha sido agradável de imaginar. Mas tal contemplação desaparece na hora do perigo. Nenhum homem, em posse de suas forças, consegue ficar imperturbável na presença do “rei dos horrores”. A vida é cara a qualquer coisa viva; o verme rastejante lutará por ela. Naquele momento, era cara para mim, escravizado e tratado tal como eu era.

Sem conseguir livrar a mão dele, novamente o peguei pelo pescoço e dessa vez com uma empunhadura medonha que logo o fez afrouxar a mão. Tibeats ficou enfraquecido e desmobilizado. Seu rosto, que estivera branco de paixão, estava agora preto de asfixia. Aqueles olhos miúdos de serpente que exalavam tanto veneno estavam agora cheios de horror — duas órbitas brancas precipitando-se para fora.

Havia um “demônio à espreita” em meu coração que me instava a matar o maldito cão naquele instante — a manter a pressão em seu odioso pescoço até que o sopro de vida se fosse! Não ousava assassiná-lo, mas não ousava deixá-lo viver. Se eu o matasse, minha vida teria de pagar pelo crime — se ele vivesse, apenas minha vida satisfaria sua sede de vingança. Uma voz lá dentro me dizia para fugir. Ser um andarilho nos pântanos, um fugitivo e um vagabundo sobre a Terra, era preferível à vida que eu estava levando.

(Doze anos de escravidão, 2014.)

 

Tanto no poema de Luiz Gama quanto no excerto de Solomon Northup se verifica uma mesma concepção de morte para os escravos. Explique essa concepção comum aos dois textos e, a seguir, transcreva um verso da primeira estrofe do poema e a frase do primeiro parágrafo do excerto que expressam essa concepção.

Gabarito:

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