Publicidade
Publicidade

Questão 49892

UNESP 2016
Português

(UNESP - 2016/2 - 2 FASE)

Era no tempo do rei.

Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos1 –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). [...]

Mas voltemos à esquina. Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época veria sentado em assentos baixos, então usados, de couro, e que se denominavam – cadeiras de campanha – um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era lícito conversar: na vida dos fidalgos, nas notícias do Reino e nas astúcias policiais do Vidigal. Entre os termos que formavam essa equação meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo-Pataca. Chamavam assim a uma rotunda e gordíssima personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos que viviam nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleirão e pachorrento; com sua vagareza atrasava o negócio das partes; não o procuravam; e por isso jamais saía da esquina; passava ali os dias sentado na sua cadeira, com as pernas estendidas e o queixo apoiado sobre uma grossa bengala, que depois dos cinquenta era a sua infalível companhia. Do hábito que tinha de queixar-se a todo o instante de que só pagassem por sua citação a módica quantia de 320 réis, lhe viera o apelido que juntavam ao seu nome.

Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe2 em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia3 rochonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão4.

 

1 meirinho: espécie de oficial de justiça.

2 algibebe: mascate, vendedor ambulante.

3 saloia: aldeã das imediações de Lisboa.

4 maganão: brincalhão, jovial, folgazão, divertido.

(Memórias de um Sargento de Milícias, 2003.)

Em Memórias de um Sargento de Milícias, o narrador não participa da ação, mas se intromete na narrativa. Trans cre - va do excerto dois pequenos trechos em que a intromissão do narrador é mais explícita. Justifique sua resposta.

 

Gabarito:

Questões relacionadas

Questão 3

(UNESP - 2016 - 1ª FASE) A questão toma por base uma crônica de Luís Fernando Veríssimo. A invasão A divisão ciência/humanismo se refle...
Ver questão

Questão 13

(UNESP - 2016 - 1ª FASE) Leia o seguinte verbete do Dicionário de comunicação de Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Barbosa: Crônica Texto jornalísti...
Ver questão

Questão 17

(UNESP - 2016 - 1ª FASE) A questão aborda um poema do português Eugênio de Castro (1869-1944). MÃOS Mãos de veludo, mãos de mártir e de sant...
Ver questão

Questão 14

(UNESP - 2016 - 1ª FASE) A questão aborda um poema do português Eugênio de Castro (1869-1944). MÃOS Mãos de veludo, mãos de mártir e de sant...
Ver questão
Publicidade