(UNESP - 2017 - 2 fase)
Texto 1
A distribuição da riqueza é uma das questões mais vivas e polêmicas da atualidade. Será que a dinâmica da acumulação do capital privado conduz de modo inevitável a uma concentração cada vez maior da riqueza e do poder em poucas mãos, como acreditava Karl Marx no século XIX? Ou será que as forças equilibradoras do crescimento, da concorrência e do progresso tecnológico levam espontaneamente a uma redução da desigualdade e a uma organização harmoniosa da sociedade, como pensava Simon Kuznets no século XX?
(Thomas Piketty. O capital no século XXI, 2014. Adaptado.)
Texto 2
Já se tornou argumento comum a ideia de que a melhor maneira de ajudar os pobres a sair da miséria é permitir que os ricos fiquem cada vez mais ricos. No entanto, à medida que novos dados sobre distribuição de renda são divulgados*, constata se um desequilíbrio assustador: a distância entre aqueles que estão no topo da hierarquia social e aqueles que estão na base cresce cada vez mais. A obstinada persistência da pobreza no planeta que vive os espasmos de um fundamentalismo do crescimento econômico é bastante para levar as pessoas atentas a fazer uma pausa e refletir sobre as perdas diretas, bem como sobre os efeitos colaterais dessa distribuição da riqueza. Uma das justificativas morais básicas para a economia de livre mercado, isto é, que a busca de lucro individual também fornece o melhor mecanismo para a busca do bem comum, se vê assim questionada e quase desmentida.
* Um estudo recente do World Institute for Development Economics Research da Universidade das Nações Unidas relata que o 1% mais rico de adultos possuía 40% dos bens globais em 2000, e que os 10% mais ricos respondiam por 85% do total da riqueza do mundo. A metade situada na parte mais baixa da população mundial adulta possuía 1% da riqueza global.
(Zygmunt Bauman. A riqueza de poucos beneficia todos nós?, 2015. Adaptado.)
Texto 3
Um certo espírito rousseauniano parece ter se apoderado de nossa época, que agora vê a propriedade privada e a economia de mercado como responsáveis por todos os nossos males. É verdade que elas favorecem a concentração de riqueza, notadamente de renda e patrimônio. Essa, porém, é só parte da história. Os mesmos mecanismos de mercado que promovem a disparidade – eles exigem certo nível de desigualdade estrutural para funcionar – são também os responsáveis pelo mais extraordinário processo de melhora das condições materiais de vida que a humanidade já experimentou. Se o capitalismo exibe o viés elitista da concentração de renda, ele também apresenta a vocação mais democrática de tornar praticamente todos os bens mais acessíveis, pelo aprimoramento dos processos produtivos. Não tenho nada contra perseguir ideias de justiça, mas é importante não perder a perspectiva das coisas.
(Hélio Schwartsman. “Uma defesa da desigualdade”. Folha de S.Paulo, 14.06.2015. Adaptado.)
Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva uma dissertação, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:
A riqueza de poucos beneficia a sociedade inteira?
Gabarito:
Resolução:
Para ajudar a desenvolver a redação "A riqueza de poucos beneficia a sociedade inteira?", o aluno possuia 3 textos motivadores que o ajudavam na compreensão do que era pedido para ser discutido, sendo esses textos:
1. Um trecho do livro “O Capital no século XXI”, de Thomas Piketty, no qual é explicitada as duas correntes ideológicas a respeito da concentração de renda. Sendo uma delas a marxista, na qual a dinâmica capitalista implica na concentração crescente de renda e, consequentemente, de poder, potencializando a desigualdade entre as clases e a marginalizaçao do proletariado. A outra correta é a liberal, representada pelo Nobel da Economia Simon Kuznets, na qual a evolução do capitalismo e o progresso tecnológico conduzem a uma redução da desigualdade entre as classes.
2. Um texto de Zygmunt Bauman retirando de um livro seu, o qual possui o título “A riqueza de poucos beneficia todos nós?”, apresenta dados obtidos por um estudo da ONU que mostravam a falsidade da tese liberal, ou seja, apesar do avanço na geração de bens e riquezas , a concentração de renda tem se intensificado. Isso põe em xeque o que o autor aponta como “uma das justificativas morais básicas para a economia de livre mercado”.
3. Apresenta um texto, do jornalista brasileiro Hélio Schwartsman, que convida o leitor refletir sobre um pensamento: embora seja inegável que a economia capitalista promova a concentração da riqueza e o aumento da desigualdade, é importante, também, reconhecer que ela permitiu que uma maior parte da população pudesse usufriir de melhores condições de vida, democratizando o acesso a diversos bens de consumo e de tecnologia.
Logo, o tema, com base no que foi dado, levava o candidato a responder à questão proposta, podendo defender o capitalismo liberal, o qual se associa à sobrevalorização do conforto e do prazer decorrentes do acesso aos bens de consumo, ou podendo atacar o liberalismo, focalizando em uma a busca da justiça social e da solidariedade. Ademais, seria interessante que o candidato espasse tanto da demonzação infundada do capitalismo quanto da sua inocente glorificação.