(UNESP - 2021 - 2ª FASE)
Leia o poema “Ausência”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder a questão.
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
(Corpo, 2015.)
Depreende-se do poema que
a ausência, uma vez incorporada, torna-se parte constitutiva do eu lírico.
a ausência, convertida em falta, passa a suprir uma carência do eu lírico.
a falta e a ausência, convertidas em instâncias internas, aliviam a solidão do eu lírico.
a falta e a ausência, uma vez personificadas, tornam-se companheiras do eu lírico.
a falta, uma vez convertida em ausência, passa a ser verbalizada pelo eu lírico.
Gabarito:
a ausência, uma vez incorporada, torna-se parte constitutiva do eu lírico.
[A]
A partir do 5º verso do poema ("A ausência é um estar em mim."), o eu lírico revela aceitar e incorporar a ausência que, a partir desse momento, passa a ser parte de sua subjetividade: é uma sensação "tão pegada, aconchegada nos meus braços,"assimilada", que "ninguém rouba mais de mim". A ausência entra definitivamente no corpo e na alma desse sujeito que enuncia.
Sobre as demais afirmativas:
b) o eu lírico antes pensava que a ausência era falta, mas depois ressignifica esse sentimento, e mostra que a ausência faz parte de sua completude. Nesse sentido, não há esse movimento de conversão de ausência em falta;
c) a "falta" não entra no processo de realização do eu lírico, uma vez que este percebe a diferença entre a falta (carência, que causa lástima) e a ausência (uma espécie de presença ressignificada);
d) esses sentimentos, de falta e ausência, não passam pela personificação. O que acontece é seu conhecimento, que permite o abandono daquela e a incorporação desta, que se faz parte da alma e do corpo do sujeito poético;
e) a intenção do eu poético não é verbalizar a falta e sim, ao perceber que ela não é o mesmo que ausência, abandoná-la em nome desse novo estado, de "estar em si".