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Questão 15

UNESP 2022
Português

(UNESP - 2022 - 1ª fase - DIA 1) 

Para responder às questões de 14 a 19, leia o artigo “Pó de pirlimpimpim”, do neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro.

          Alcançar o aprendizado instantâneo é um desejo poderoso, pois o cérebro sem informação é pouco mais que estofo de macela1 . Emília, a sabida boneca de Monteiro Lobato, aprendeu a falar copiosamente após engolir uma pílula, adquirindo de supetão todo o vocabulário dos seres humanos ao seu redor. No filme Matrix (1999), a ingestão de uma pílula colorida faz o personagem Neo descobrir que todo o mundo em que sempre viveu não passa de uma simulação chamada Matriz, dentro da qual é possível programar qualquer coisa. Poucos instantes depois de se conectar a um computador, Neo desperta e profere estupefato: “I know kung fu”.
          Entretanto, na matriz cerebral das pessoas de carne e osso, vale o dito popular: “Urubu, pra cantar, demora.” O aprendizado de comportamentos complexos é difícil e demorado, pois requer a alteração massiva de conexões neuronais. Há consenso hoje em dia de que o conteúdo dos nossos pensamentos deriva dos padrões de ativação de vastas redes neuronais, impossibilitando a aquisição instantânea de memórias intrincadas.
          Mas nem sempre foi assim. Há meio século, experimentos realizados na Universidade de Michigan pareciam indicar que as planárias, vermes aquáticos passíveis de condicionamento clássico, eram capazes de adquirir, mesmo sem treinamento, associações estímulo-resposta por ingestão de um extrato de planárias já condicionadas. O resultado, aparentemente revolucionário, sugeria que os substratos materiais da memória são moléculas. Contudo, estudos posteriores demonstraram que a ingestão de planárias não condicionadas também acelerava o aprendizado, revelando um efeito hormonal genérico, independente do conteúdo das memórias presentes nas planárias ingeridas.
          A ingestão de memórias é impossível porque elas são estados complexos de redes neuronais, não um quantum de significado como a pílula da Emília. Por outro lado, é sim possível acelerar a consolidação das memórias por meio da otimização de variáveis fisiológicas envolvidas no processo. Uma linha de pesquisa importante diz respeito ao sono, cujo benefício à consolidação de memórias já foi comprovado. Em 2006, pesquisadores alemães publicaram um estudo sobre os efeitos mnemônicos da estimulação cerebral com ondas lentas (0,75 Hz) aplicadas durante o sono por meio de um estimulador elétrico. Os resultados mostraram que a estimulação de baixa frequência é suficiente para melhorar o aprendizado de diferentes tarefas. Ao que parece, as oscilações lentas do sono são puro pó de pirlimpimpim.

(Sidarta Ribeiro. Limiar: ciência e vida contemporânea, 2020.)

1 macela: planta herbácea cujas flores costumam ser usadas pela população como estofo de travesseiros.

De acordo com o autor,

A

o avanço das pesquisas científicas pode tornar a ingestão de memórias uma prática ultrapassada.

B

a ideia de aperfeiçoamento da memória a qualquer custo pode representar um risco para a humanidade.

C

a ideia do aprendizado instantâneo pode vir a se tornar realidade em um futuro muito próximo.

D

a consolidação de memórias pode ser acelerada mediante o emprego de técnicas científicas.

E

o emprego arbitrário de técnicas científicas pode vir a descaracterizar a própria natureza da memória.

Gabarito:

a consolidação de memórias pode ser acelerada mediante o emprego de técnicas científicas.



Resolução:

[D]

Sidarta Ribeiro, na conclusão de seu texto, mostra como "é sim possível acelerar a consolidação das memórias por meio da otimização de variáveis fisiológicas envolvidas no processo", isto é, como existem métodos e processos científicos capazes de "melhorar" o desempenho cerebral no plano da fixação das memórias. O autor exemplifica tal afirmação por meio do estudo com as ondas de baixa frequência que se mostraram eficientes no processo da memória. 

Sobre as demais afirmativas

a) a "ingestão de memórias" não é uma prática, visto que foi apenas uma hipótese que emergiu no experimento com as planárias. Pesquisas posteriores questionaram tais resultados, mas eles não haviam constituído uma prática científica, muito menos humana; 

b) o autor não traz essa problematização, visto que não discute por meio de juízos de valor o aparente desejo de aperfeiçoar a memória. Ele constrói uma análise científica (inclusive com prognósticos positivos), sem fazer o balanço ético-social dessa busca; 

c) o autor descarta qualquer possibilidade de que tal aprendizado venha a ocorrer: "Entretanto, na matriz cerebral das pessoas de carne e osso [...] o aprendizado de comportamentos complexos é difícil e demorado" "A ingestão de memórias é impossível porque elas são estados complexos de redes neuronais"

e) não há, no texto, uma alusão a esse emprego "arbitrário" de técnicas, e o autor não alarma quanto à descaracterização da faculdade da memória. A aceleração cientificamente induzida não configura, para o neurocientista, uma desconfiguração da memória como tal. 

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