(UNESP - 2022 - 1ª fase - DIA 1)
O tópico clássico do locus amoenus está bem exemplificado nos seguintes versos do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage:
O ledo passarinho, que gorjeia
D’alma exprimindo a cândida ternura,
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:
Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Ante a doce visão com que me enlaças,
Já murcho, estéril já, meu ser floresce:
Mas súbito fantasma eis desvanece
Chusma de encantos, que em teu sonho abraças:
Já o Inverno, espremendo as cãs nevosas,
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao Polo em serras escumosas;
Quando por entre os véus da noite fria
A máquina celeste observo acesa,
Da angústia, de terror a imagens presa
Começa a devorar-me a fantasia.
Gabarito:
O ledo passarinho, que gorjeia
D’alma exprimindo a cândida ternura,
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:
O locus amoenus é uma das convenções poéticas árcades, e consiste na representação de espaços (locus) harmoniosos, serenos, belos, pacíficos e tranquilos (amoenus). Isso fica evidente na estrofe da letra [A]: pássaros, rio e pedrinhas associados a ternura, murmúrio e transparência transportam o poema a esse espaço ameno e tranquilo, reflexo da perfeição da natureza.
Nos demais trechos, há sempre elementos “sombrios”, inquietantes, algo que tira da representação essa harmonia prevista pelo locus amoenus, a saber:
b) “noite escura e feia”; “profundo silêncio”; “deserto bosque”; “de luz vedada”;
c) “murcho, estéril já”; “fantasma eis desvanece”
d) “Inverno”; “horrendas nuvens”; “aéreo fuzil”; “serras escumosas”;
e) “véus da noite fria”; “da angústia de terror a imagens presa”; “devorar-me a fantasia”.