(UNICAMP - 2010 - 2 fase - Questão 10)
O poeta Vinicius de Moraes, apesar de modernista, explorou formas clássicas como o soneto abaixo, em versos alexandrinos (12 sílabas) rimados:
Soneto da intimidade
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
(Vinicius de Moraes, Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 86.)
a) Essa forma clássica tradicionalmente exigiu tema e linguagem elevados. O “Soneto da intimidade” atende a essa exigência? Justifique.
b) Como os quartetos anunciam a identificação do eu lírico com os animais? Como os tercetos a confirmam?
Gabarito:
Resolução:
a) O "Soneto da intimidade" não atende a essa exigência. Quando o leitor se depara com o título, espera que se trate de um soneto acerca de sentimentos íntimos, sublimes, que serão tratados com grande cuidado e altivez, o que não se confirma na leitura do soneto em si. A "intimidade" se refere à intimidade entre duas (ou mais) pessoas, com um trato informal na linguagem, o que pode ser observado em versos como "Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais" e "E quando por acaso uma mijada ferve".
b) Nos quartetos, a identificação está nas ações do eu lírico, que remetem diretamente às de um boi, como mastigar capim e descer o rio no vau dos pequenos canais. Nos tercetos, essa identificação se confirma quando o eu lírico diz que os bois e vacas olhavam para ele sem ciúmes, e inclusive utiliza "nós" para se referir a ele e ao grupo de animais.