(UNICAMP - 2015) No texto abaixo, há uma presença significativa de metáforas que auxiliam na construção de sentidos.
Entre silêncios e diálogos
Havia uma desconfiança: o mundo não terminava onde os céus e a terra se encontravam. A extensão do meu olhar não podia determinar a exata dimensão das coisas. Havia o depois. Havia o lugar do sol se aninhar enquanto a noite se fazia. Havia um abrigo para a lua enquanto era dia. E o meu coração de menino se afogava em desesperança. Eu que não era marinheiro nem pássaro - sem barco e asa.
Um dia aprendi com Lili a decifrar as letras e suas somas. E a palavra se mostrou como caminho poderoso para encurtar distância, para alcançar onde só a fantasia suspeitava, para permitir silêncio e diálogo. Com as palavras eu ultrapassava a linha do horizonte. E o meu coração de menino se afagava em esperança.
Ao virar uma página do livro, eu dobrava uma esquina, escalava uma montanha, transpunha uma maré.
Ao passar uma folha, eu frequentava o fundo dos oceanos, transpirava em desertos para, em seguida, me fazer hóspede de outros corações.
Pela leitura temperei a minha pátria, chorei sua miséria, provei de minha família, bebi de minha cidade, enquanto, pacientemente, degustei dos meus desejos e limites.
Assim, o livro passou a ser o meu porto, a minha porta, o meu cais, a minha rota. Pelo livro soube da história e criei os avessos, soube do homem e seus disfarces, soube das várias faces e dos tantos lugares de se olhar. (...) Ler é aventurar-se pelo universo inteiro.
(Bartolomeu Campos de Queirós, Sobre ler, escrever e outros diálogos. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 63.)
a) No trecho “Assim, o livro passou a ser o meu porto, a minha porta, o meu cais, a minha rota”, há metáforas que expressam a experiência do autor com a leitura. Escolha uma dessas metáforas e explique-a, considerando seu sentido no texto.
b) O texto mostra que a experiência de leitura promove uma importante mudança subjetiva. Explique essa mudança e cite dois trechos nos quais ela é explicitada
Gabarito:
Resolução:
a) Com referências ao "porto" e ao "cais", o autor se vale da simbologia da partida e da chegada de um navio, relacionando esse processo a uma viagem possibilitada apenas através da leitura. Assim, o livro é o que o faz viajar e, ao mesmo tempo, o que o acompanha na viagem e o recebe de volta à realidade.
b) Segundo o autor, a leitura é a responsável por abrir os olhos daqueles que se permitem entregar-se a ela, fazendo com que, além de enxergar melhor o seu mundo e as suas vivências, outras perspectivas de vida e pontos de vista sejam conhecidos, ampliando os limites da consciência do leitor. Dois trechos em que isso é visível seriam "Pela leitura temperei a minha pátria, chorei sua miséria, provei de minha família, bebi de minha cidade, enquanto, pacientemente, degustei dos meus desejos e limites" e "Pelo livro soube da história e criei os avessos, soube do homem e seus disfarces, soube das várias faces e dos tantos lugares de se olhar".