(UNICAMP - 2016 - 1ª FASE)
Quanto seja louvável a um príncipe manter a fé, aparentar virtudes e viver com integridade, não com astúcia, todos o compreendem; contudo, observa-se, pela experiência, em nossos tempos, que houve príncipes que fizeram grandes coisas, mas em pouca conta tiveram a palavra dada, e souberam, pela astúcia, transtornar a cabeça dos homens, superando, enfim, os que foram leais (...). Um príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o determinaram cessem de existir.
(Nicolau Maquiavel, O Príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 1997, p. 73-85.)
A partir desse excerto da obra, publicada em 1513, é correto afirmar que:
O jogo das aparências e a lógica da força são algumas das principais artimanhas da política moderna explicitadas por Maquiavel.
A prudência, para ser vista como uma virtude, não depende dos resultados, mas de estar de acordo com os princípios da fé.
Os princípios e não os resultados é que definem o julgamento que as pessoas fazem do governante, por isso é louvável a integridade do príncipe.
A questão da manutenção do poder é o principal desafio ao príncipe e, por isso, ele não precisa cumprir a palavra dada, desde que autorizado pela Igreja.
Gabarito:
O jogo das aparências e a lógica da força são algumas das principais artimanhas da política moderna explicitadas por Maquiavel.
a) Correta. O jogo das aparências e a lógica da força são algumas das principais artimanhas da política moderna explicitadas por Maquiavel.
A maior dificuldade do exercício é a leitura cuidadosa para interpretação do excerto, por estar escrito em uma linguagem mais erudita e rebuscada. Apesar disso, o texto é bastante claro: Maquiavel expressa que o bom príncipe deve ser astuto, maleável, capaz de cumprir ou faltar com sua palavra quando necessário, sempre tendo em vista a eficácia de suas ações.
O principal objetivo do governante seria manter-se no poder. Dessa forma, o príncipe deveria se utilizar de muita astúcia e todas as artimanhas que estivessem ao seu alcance (como diz a alternativa A, "o jogo das aparências e a lógica da força") para atingir seu objetivo, desconsiderando promessas firmadas (com quem quer que seja) ou valores morais predominantes na sociedade. Como se pode ver pelo trecho: “Um príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o determinaram cessem de existir”. O príncipe ideal, na concepção de Maquiavel, não é aquele que cumpre com sua palavra até as últimas consequências, mas aquele que sabe abandonar suas convicções diante de adversidades, hábil o suficiente para equilibrar as aparências: mostrar fraqueza quando tem força e força quando tem fraqueza, indicando que é melhor parecer do que ser.
b) Incorreta. A prudência, para ser vista como uma virtude, não depende dos resultados, mas de estar de acordo com os princípios da fé.
O príncipe deve ser preocupar com os resultados e não com princípios.
c) Incorreta. Os princípios e não os resultados é que definem o julgamento que as pessoas fazem do governante, por isso é louvável a integridade do príncipe.
Os resultados da ação é que definem a visão sobre o príncipe, ao invés dos princípios. Assim, a integridade do governante, quando falha em momentos de tirania, não é motivo de contestação, pois sabe-se que os resultados advindos da ação serão válidos ("os fins justificam os meios").
d) Incorreta. A questão da manutenção do poder é o principal desafio ao príncipe e, por isso, ele não precisa cumprir a palavra dada, desde que autorizado pela Igreja.
O príncipe não se submete à autoridade da Igreja, não precisando de autorização para tomar suas decisões e atitudes.