(UNICAMP - 2018 - 2ª fase)
Leia abaixo dois excertos de Terra Sonâmbula, de Mia Couto.
“Muidinga não ganha convencimento. Olha a planície, tudo parece desmaiado. Naquele território, tão despido de brilho, ter razão é algo que já não dá vontade.”
(...)
“– Sabe, miúdo, o que vamos fazer? Você me vai ler mais desses escritos.
– Mas ler agora, com esse escuro?
– Acendes o fogo lá fora.
– Mas, com a chuva, a lenha toda se molhou.
– Então vamos acender o fogo dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.
– Podemos, tio? Não há problema?
– Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então
vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.”
(Mia Couto, Terra Sonâmbula. Rio de Janeiro: Record, 1993, p.10 e 152.)
a) No primeiro excerto, descreve-se a relação da personagem com o espaço narrativo. Considerando o conjunto do romance, caracterize a identidade narrativa de Muidinga em relação a esse espaço e explique por que o território era “despido de brilho”.
b) No segundo excerto, o diálogo das duas personagens principais do romance aborda a questão da leitura e sua função para a situação existencial dos protagonistas. Explique o que seriam os “escritos” e “ cadernos” mencionados e por que neles os protagonistas poderiam “cantar e divertir”.
Gabarito:
Resolução:
a) Muidinga, personagem que faz parte de um dos eixos da narrativa, contada em terceira pessoa, está em busca de sua identidade pessoal, após ter sido acometido por uma enfermidade. O percurso da personagem no espaço narrativo do romance remete à situação histórica de Moçambique: destruída pela guerra e igualmente às voltas com problemas de identidade social e cultural, devendo recuperar seu passado na perspectiva da construção de um futuro. A causa de o território ser “despido de brilho” seria justamente a situação de violência e pobreza decorrentes da guerra civil. Isso se manifesta, por exemplo, no local (machimbondo) onde se desenrola parte desse eixo narrativo.
b) Os cadernos mencionados no segundo trecho são encontrados por Muidinga próximos ao cadáver de Kindzu, e contêm o relato de sua vida. Trata-se do segundo eixo narrativo do romance, que aborda os anos da Guerra Civil e questões da tradição cultural moçambicana. A descoberta dos cadernos de Kindzu e a sua leitura pelo protagonista sugerem o poder da ficção em reconfigurar, por meio da imaginação, as identidades vulneráveis das personagens, em trânsito por um país devastado pela guerra, propiciando a evasão da realidade imediata e uma breve celebração da vida.