(UNICAMP - 2019 - 1ª fase)
Na década de 1950, quando iniciava seu governo, Juscelino Kubitschek prometeu “50 anos em 5”. Na campanha do atual governo o slogan ficou assim: “O Brasil voltou, 20 anos em dois”. A ‘tradução’ não tinha como dar certo; era como comparar vinho com água. E mais: havia uma vírgula no meio do caminho. Na propaganda, apenas uma vírgula impede que a leitura, ao invés de ser positiva e associada ao progressismo de Juscelino, se transforme numa mensagem de retrocesso: o Brasil de fato ‘voltou’ muito nesses últimos dois anos; para trás.
(Adaptado de Lilia Schwarcz, Havia uma vírgula no meio do caminho. Nexo Jornal, 21/05/2018.)
Considerando o gênero propaganda institucional e o paralelo histórico traçado pela autora, é correto afirmar que o slogan do atual governo fracassou porque
o uso da vírgula provocou uma leitura negativa do trecho que alude ao slogan da década de 1950.
a mensagem projetada pelo slogan anterior era mais clara, direta, e não exigia o uso da vírgula.
a alusão ao slogan anterior afasta o público jovem e provoca a perda de seu poder persuasivo.
o duplo sentido do verbo “voltar” gerou uma mensagem que se afasta daquela projetada pelo slogan anterior.
Gabarito:
o duplo sentido do verbo “voltar” gerou uma mensagem que se afasta daquela projetada pelo slogan anterior.
[D]
Lilia Schwarcz tece uma crítica irônica ao slogan do governo Temer, “O Brasil voltou, 20 anos em dois” ao compará-lo com a frase “50 anos em 5”, promessa de campanha de Juscelino Kutbishek, cuja eleição foi alavancada pela promessa de plano de ação desenvolvimentista que iria contrastar com governantes anteriores. Desta forma, o verbo “voltar”, no sentido de “ressurgir”, o que imprimiria conotação positiva ao slogan do governo, pode adquirir significado negativo, ao ser entendido como regredir, voltar atrás, como evidencia a autora: “o Brasil de fato ‘voltou’ muito nesses últimos dois anos; para trás”.
Sobre as demais alternativas:
a) a vírgula, na verdade, impede a leitura negativa. A historiadora brinca, justamente, com esse fato: se não houvesse a "vírgula no meio do caminho", a leitura seria mais apropriada à história: O Brasil voltou 20 anos em 2, sinalizando os retrocessos políticos ligados ao período do slogan;
b) o fato de a mensagem anterior ser mais clara, direta e dispensar a vírgula não pode ser apontado como motivo para o fracasso do novo slogan, conforme coloca o enunciado. O problema para o slogan de Temer não está no de Kubitschek, e sim nele mesmo;
c) em momento algum se menciona o fato de que o slogan deveria ser dirigido aos jovens. Além disso, o mote "50 anos em 5" é uma referência presente no senso comum e mesmo na cultura popular, o que levaria a sua "reescrita" a ser tranquilamente compreendida por um público amplo. Não foi esse afastamento, portanto, que diminuiu seu poder de persuasão.