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Questão 37862

UNICAMP 2019
Redação

(UNICAMP - 2019 - 2 FASE)

PROPOSTA 1

Você é um(a) estudante do Ensino Médio na rede pública estadual e soube de um acontecimento revoltante na sua escola: sua professora de Filosofia recebeu ofensas e ameaças anônimas por suposta tentativa de doutrinação política, ao ter iniciado o curso sobre as origens da Cidadania e dos Direitos Humanos modernos com o texto a seguir:

       A ninguém, nem aos deuses nem aos demônios, nem às tiranias da terra nem às tiranias do céu, foi dado o poder de impedir aos homens o exercício daquele que é o primeiro e o maior de seus atributos: o exercício do pensamento. Podem amarrar as mãos de um homem, impedindo-lhe o gesto. Podem atar-lhe os pés, impedindo-lhe o andar. Podem vazar-lhe os olhos, impedindo a vista.

       Podem cortar-lhe a língua, impedindo a fala. O direito de pensar, o poder de pensar, porém, estão acima de todas as violências e de todas as repressões, que nada podem contra seu exercício. (...) Parece claro que não há abuso mais abominável que o de tentar impor limitações ao pensamento de qualquer pessoa.

       Pretender suprimir o pensamento de quem quer que seja é o maior dos crimes. Pois não é apenas um crime contra uma pessoa, mas contra a própria espécie humana, uma vez que o pensamento é o atributo que distingue o ser humano dos demais seres criados sobre a face da terra. (...)

       Na vida na cidade, se um homem neutraliza dentro de si o direito de pensar, a cidade pode ser tomada e dominada pela ferocidade de um tirano, cujo despotismo levará o povo à morte pela fome, pela crueldade ou por outras formas de injustiça e prepotência. E se não o povo todo, pelo menos uma parte do povo, certamente, será arrastada à opressão, à tortura, ao cárcere ou a qualquer outra forma de perdição. Os tiranos não gostam que as pessoas pensem.

(Teócrito de Corinto, filósofo grego, século II d.C.)

 

A direção da escola ainda não se manifestou publicamente sobre o episódio. Indignado(a) com a tentativa de censura que a professora sofreu por propor aos alunos reflexões fundamentais à formação cidadã utilizando Teócrito e o pensamento, decidiu escrever o texto de um abaixo-assinado encaminhado à direção da escola, em nome dos estudantes, no qual deve: a) reivindicar que a escola se posicione publicamente em defesa da professora; b) reivindicar a manutenção de aulas de Filosofia que tematizem os Direitos Humanos; e c) justificar suas reivindicações. Para tanto, você deve levar em conta tanto o texto acima quanto os excertos abaixo.

1. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.

(Declaração Universal dos Direitos Humanos, Artigo XXVI, item 2, 1948.)

2. 

(Alexandre Beck. Disponível em pa.unicamp.br/direitos-humanos -armandinho-na-upa. Acessado em 24/11/2018.)

3. No que toca aos direitos humanos, a filósofa Hannah Arendt identificou na ruptura trazida pela experiência totalitária do nazismo e do stalinismo a inauguração do tudo é possível, que levou pessoas a serem tratadas como supérfluas e descartáveis. Tal fato contrariou os valores consagrados da Justiça e do Direito, voltados a evitar a punição desproporcional e a distribuição não equitativa de bens e situações. Arendt propõe assegurar um mundo comum, marcado pela pluralidade e pela diversidade, o qual, através do exercício da liberdade, impediria o ressurgimento de um novo estado totalitário de natureza. No mundo contemporâneo, continuam a persistir situações sociais, políticas e econômicas que, mesmo depois do término dos regimes totalitários, contribuem para tornar os homens supérfluos e sem lugar num mundo comum, como a ubiquidade da pobreza e da miséria, a ameaça do holocausto nuclear, a irrupção da violência, os surtos terroristas, a limpeza étnica, os fundamentalismos excludentes e intolerantes. (Adaptado de Celso Lafer, A reconstrução dos direitos humanos: a contribuição de Hannah Arendt. Estudos Avançados, v. 11, n. 30, São Paulo, p. 55-65, maio/ago. 1997.)

4. O bicho está pegando na educação. Fico pensando em que mundo vivem os que acham que as escolas brasileiras sofrem de “contaminação político-ideológica” comandada por “um exército organizado de militantes travestidos de professores”. É uma baita contradição para quem diz defender a “pluralidade”, e é o caminho oposto dos países de alto desempenho em educação: Estados Unidos (em que alguns Estados oferecem educação sexual desde o século XIX), Nova Zelândia, Suécia, Finlândia e França. No Brasil, querem interditar o debate. Mesma coisa com os estudos indígenas e africanos, classificados aqui como porta de entrada para favorecer “movimentos sociais”. Já na Noruega, o currículo é generoso com o povo sami, habitantes originais do norte da Escandinávia. “Doutrinação”, por lá, chama-se respeito à diversidade e às raízes da história do país. Para piorar, o principal evangelista dessa “Bíblia do Mal” seria Paulo Freire. Justo ele, pacifista convicto e obcecado pela ideia de que as pessoas deveriam pensar livremente. Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. (Adaptado de Blog do Sakamoto. Disponível em https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br. Acessado em 05/07/2018.)

 

Gabarito:

Resolução:

Erica

A primeira proposta de redação solicitou ao candidato que fizesse um texto no gênero “abaixo-assinado” que é essencialmente argumentativo e cujo objetivo é expor o posicionamento de um determinado grupo sobre um acontecimento, fazendo uma solicitação a uma autoridade sobre o assunto de interesse coletivo.

 

A estrutura do “ abaixo-assinado” exige:

Vocativo – É o nome do destinatário e deve vir acompanhado do pronome de tratamento apropriado.

Corpus do texto – é a estrutura composta em média por dois parágrafos, iniciados por um tópico frasal e ampliado posteriormente. É nele que os argumentos são expostos e articulados e as solicitações são feitas, bem como suas justificativas.

Local e data  –  É a parte final, que marca a contemporaneidade e urgência da solicitação.

Assinatura – É a identificação dos solicitantes.

O candidato deveria atender as especificidades do gênero e das especificações dadas e assumir o papel de um aluno que indignado(a) com a tentativa de censura que a professora sofreu por propor aos alunos reflexões fundamentais à formação cidadã.

Seu texto em nome dos estudantes, exige posicionamento público da escola,  em defesa da professora. Veja que só há a possibilidade de o candidato escrever um texto contrário ao movimento criado pelo advogado Miguel Nagib, “Escola sem partido”, e que é, nos dias de hoje, amplamente discutido pela sociedade civil. O projeto limita o debate, ameaça a liberdade do professor e participação democrática do aluno na sociedade. Foi esse exemplo de censura e limitação dado na temática da redação, ao mostrar a professora de Filosofia sendo duramente atacada por iniciar um curso sobre as origens da Cidadania e dos Direitos Humanos modernos.

O texto da coletânea, no trecho que compõe dos dois parágrafos iniciais corrobora essa ideia: “A ninguém, nem aos deuses nem aos demônios, nem às tiranias da terra nem às tiranias do céu, foi dado o poder de impedir aos homens o exercício daquele que é o primeiro e o maior de seus atributos: o exercício do pensamento.

Podem amarrar as mãos de um homem, impedindo-lhe o gesto. Podem atar-lhe os pés, impedindo-lhe o andar. Podem vazar-lhe os olhos, impedindo a vista. Podem cortar-lhe a língua, impedindo a fala. O direito de pensar, o poder de pensar, porém,

estão acima de todas as violências e de todas as repressões, que nada podem contra seu exercício. (...) Parece claro que não há abuso mais abominável que o de tentar impor limitações ao pensamento de qualquer pessoa.”

O direcionamento da indicação da letra A, nos leva ao debate da liberdade e pluralidade de pensamento.

A letra B exige a manutenção das aulas de Filosofia. Aqui, cabia ao candidato explicitar a importância da disciplina para a ampliação do raciocínio crítico e da bagagem cultural na sala de aula e também argumentar favoravelmente em defesa dos direitos humanos.

O candidato deveria posicionar-se discursivamente e  mostrar como a Filosofia estuda a natureza da existência humana,  os meandros do conhecimento, o conceito de verdade e pós-verdade, os valores morais e éticos de uma sociedade, a mente, a linguagem e o universo em sua totalidade.

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