(UNICAMP - 2021 - 2ª FASE)
Durante anos, Penélope esperou que seu marido, Ulisses, retornasse da Guerra de Troia (IX e VII a.C.). Essa viagem é o tema da Odisseia, poema épico grego atribuído a Homero. Como os anos passavam e não havia notícias de Ulisses, o pai de Penélope sugeriu que ela se casasse novamente. Diante da insistência do pai, resolveu aceitar a corte dos pretendentes, com a condição de que o novo casamento somente aconteceria depois que ela terminasse de tecer um sudário, que ficou conhecido como “Tela de Penélope”, que serviria de mortalha para Laerte, pai de Ulisses. Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope tecia, e à noite, secretamente, desmanchava todo o trabalho. Com esse artifício, adiava a escolha de outro marido até a volta de Ulisses.
(Adaptado de Penélope, Wikipedia. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Pen%C3%A9lope. Acessado em 09/01/2021.)
Penélope (I)
O que o dia tece
a noite esquece.
O que o dia traça
a noite esgarça.
De dia, tramas,
de noite, traças.
De dia, sedas,
de noite, perdas.
De dia, malhas,
de noite, falhas
(Ana Martins Marques, A vida submarina. Belo Horizonte: Scriptum, 2009, p. 105.)
a) Como as palavras “traça” (na segunda estrofe) e “traças” (na terceira estrofe) constroem uma relação antitética no poema?
b) No poema, a palavra “tramas” remete a Penélope por duas razões. Quais são elas? Explique.
Gabarito:
Resolução:
a) Considerando a alusão do poema ao mito de Penélope, o dia é associado a gestos e imagens de construção, tecelagem e preenchimento; ao passo que a noite figura a desconstrução, o desmanche e o vazio. Essa é a relação antitética entre “traça” (v. 3) e “traças” (v. 6). O primeiro, associado ao dia, remete à ação de “traçar” - constituir traços, urdir, desenhar. O segundo, na noite, apresenta caráter polissêmico: alude tanto à traça, inseto conhecido pelo poder de devorar e destruir objetos, quanto ao verbo “traçar” que, na linguagem popular, está associado também à ideia de desconstruir, desfazer, corroer.
b) A palavra “tramas”, no poema, assume caráter polissêmico, conectando-se por duas frentes à lenda de Penélope. O primeiro sentido está associado ao verbo “tramar”, conjugado na 2ª pessoa do singular, que indica a ação de conspiração, engenho e enganação de Penélope ao realizar seu plano para evitar outro casamento. O segundo sentido, substantivo, traz a ideia das “tramas” de um tecido, as malhas, as redes de compõem a atividade fundamental da costura. Nesse segundo sentido, sugere-se a atividade diuturna da heroína num sentido literal e, metaforicamente, as linhas que a conectam à seu marido, Ulisses, e, com isso, da própria guerra de Troia e seus desdobramentos afetivos e históricos.