(UNICAMP - 2022 - 2ª fase)
A grande recusa do corpo não se dá apenas no campo da sexualidade. A luxúria passa a ser cada vez mais associada à gula. Por isso, as recomendações da Igreja passam a se dirigir tanto à carne quanto à boca. Os pecados da carne e os pecados da boca passam a caminhar de mãos dadas. Assim, a embriaguez é reprimida também como forma de controlar os “camponeses e os bárbaros", muito apreciadores de bebedeiras. A indigestão é igualmente associada ao pecado. A abstinência e o jejum dão o ritmo, portanto, do "homem medieval". Gordo oposto ao magro, Carnaval que se empanturra contra Quaresma que jejua. A tensão atravessa o corpo medieval.
(Adaptado de Jacques Le Goff e Nicolas Truong, Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 58 e 59.)
A partir da leitura do texto e de seus conhecimentos sobre Idade Média, responda às questões.
a) Cite e explique as tensões, que o texto menciona, relacionadas, no período medieval, ao corpo.
b) Cite e explique duas diferenças, entre a sociedade medieval e a sociedade contemporânea, no que diz respeito à percepção sobre o corpo ideal.
Gabarito:
Resolução:
a) A Idade Média foi o período onde a glorificação do corpo de Jesus Cristo teve seu auge, mas ao mesmo tempo a questão da valorização e da apreciação do próprio corpo eram violentamente repudiadas pela Igreja, a maior instituição da época. Então, no sentido da tensão, temos claros no texto uma apologia à festividades seguidas de penitências, que são bem ilustrativas sobre como o homem era conduzido em sua relação com o próprio corpo. O corpo de Jesus Cristo é exaltado, mas o corpo dos homens é visto como fonte de pecado e como templo sujo que precisa ser salvo. Ao mesmo tempo que é capaz de alcançar sua salvação, o homem deveria ir contra os desejos carnais em busca da santidade eterna, da alma.
b) Durante a Idade Média o “corpo ideal” estava ligado diretamente a uma noção de pureza, trazendo a religiosidade deste período para a discussão, onde a virgindade e a infantilização dos corpos era presente. Os ideais de beleza também tinham a ver com a forma que a alimentação era encarada neste período, ou seja, pessoas mais robustas eram mais prestigiadas, pois tinham mais do que comer e em mais variedade. Atualmente, a noção de beleza perfeita está muito relacionada com uma noção de experiências carnais, onde se tem a valorização de um físico atlético e da nudez. Por outro lado, a alimentação em excesso é repudiada atualmente, sendo corpos magros majoritariamente valorizados em comparação com gordos, que são vistos não como abonados, mas como preguiçosos, em certa medida.