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Questão 34

UNICAMP 2022
Português

(UNICAMP - 2022 - 1 FASE - Caderno R)

Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as diga, pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais... Falo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente...
(Fernando Pessoa, O marinheiro. Campinas: Editora da Unicamp, 2020, p. 51.)

O que eu era outrora já não se lembra de quem sou... Às vezes, à beira dos lagos, debruçava-me e fitava-me... Quando eu sorria, os meus dentes eram misteriosos na água... Tinham um sorriso só deles, independentes do meu...
(Idem, p. 52.)

Nos excertos acima, dois fenômenos são apresentados ao leitor e constituem o principal problema dramático da peça de Fernando Pessoa. Assinale a alternativa que identifica e explica corretamente esses fenômenos.

A

As palavras e as imagens tornam-se independentes da pessoa humana. Isso significa a cisão entre o sujeito e o mundo ou, ainda, a crise de identidade pessoal reiterada nos diálogos.

B

Proferir um discurso e ver-se refletido em um lago são situações dramáticas que sugerem a unidade entre ser e existir. A questão central, quem eu sou, é resolvida no desfecho da peça.

C

Lembrar e esquecer são dois aspectos inseparáveis da estrutura dramática da peça. Se a imagem refletida no lago não se assemelha à pessoa que a contempla, as palavras, por sua vez, garantem a conexão entre o eu e a realidade exterior.

D

O horror e o mistério das coisas são elementos básicos desse drama. Eles produzem, nas personagens, a convicção de que é útil narrar as experiências do passado porque assim se revela o seu verdadeiro significado.

Gabarito:

As palavras e as imagens tornam-se independentes da pessoa humana. Isso significa a cisão entre o sujeito e o mundo ou, ainda, a crise de identidade pessoal reiterada nos diálogos.



Resolução:

a. Correta. As frases “As minhas palavras presentes, mal eu as diga, pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais…” e “O que eu era outrora já não se lembra de quem sou…” revelam a cisão entre o sujeito e a linguagem (constituinte do mundo), uma vez que o sujeito só se identifica com ele mesmo no momento presente e o que foi dito já se torna “ultrapassado”. Por isso, há uma crise de identidade: não há uma identificação do sujeito consigo mesmo.

b. Incorreta. Ao final da obra, a reflexão permanece irresoluta, com interpretação vaga sobre a questão central.  

c. Incorreta. O trecho “As minhas palavras presentes, mal eu as diga,
pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais…” demonstra como as palavras não garantem uma conexão do eu com uma realidade exterior.

d. Incorreta. Se, segundo o narrador, o passado não representa a essência do sujeito presente, não há utilidade em narrar as experiências do passado para esse fim.

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