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Questão 1820

UNIFESP 2005
Português

(UNIFESP-2005)

Leia o poema de Mário Quintana.

De gramática e de linguagem

E havia uma gramática que dizia assim:
“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.
Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!...
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multipli-
[cam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com
[ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante...)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão.
Amigo ou adverso... João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto...

 

Observe os pares de versos:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta.” “Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido: Basta provares o seu gosto…”

Considerando-se o título e os sentidos propostos no poema, é correto afirmar sobre os versos que

 

 

 

A

o primeiro par remete à ideia de gramática; o segundo, à ideia de linguagem. Neles predominam, respectivamente, a função metalinguística e a apelativa.

B

ambos os pares remetem à ideia de gramática; portanto, neles predomina a função metalinguística.

C

o primeiro par remete à ideia de gramática; o segundo, à ideia de linguagem. Nos dois pares, predomina a função referencial.

D

ambos os pares remetem à ideia de linguagem. No primeiro, a função é metalinguística; no segundo, referencial.

E

o primeiro par remete à ideia de linguagem; o segundo, à ideia de gramática. Em ambos os pares, estão presentes as funções apelativa e referencial.

Gabarito:

o primeiro par remete à ideia de gramática; o segundo, à ideia de linguagem. Neles predominam, respectivamente, a função metalinguística e a apelativa.



Resolução:

[A]

a) Correta. O trecho "Substantivo (concreto) é tudo quanto indica Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta.” apresenta o conceito gramatical morfológico sobre substantivo concreto e seus exemplos, referindo-se à questão da própria dinâmica e funcionamento interno do sistema da linguagem.  Já em “Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido: Basta provares o seu gosto…”, há uma reflexão sobre a recepção e "sensação" provocada pela linguagem no leitor. A referência dialógica direta (revelada nos verbos em 2ª pessoa - "tu") revelam um interesse apelativo ou conativo, função presente nos versos e em seu tom de "convite"; 

b) Incorreta. Não há uma referência do segundo par à ideia de gramática, mas sim uma relação com o leitor, "negociando" poeticamente com ele as possibilidades sensoriais da recepção da linguagem do poema. 

c) Incorreta. Em nenhum dos dois pares predomina a função referencial, pois ambos estão no universo poético e figuram acepções respectivas de metalinguagem e diálogo com o leitor. A referencialidade é a observação objetiva de fatos, a referência explicativa a realidades e situações concretas - algo que, ainda que possa ser sugerido no primeiro trecho, não se aplica ao contexto do poema. 

d) Incorreta. A referência no primeiro par é mais à gramática que à linguagem; o segundo par não é referencial, e sim poético/apelativo; 

e) Incorreta. Nessa "dicotomia", a gramática se apresenta no primeiro par e a linguagem no segundo. Ademais, não há função apelativa no primeiro, e referencial em nenhum deles, como explicado. 

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