(UNIOESTE - 2013)
“A necessidade prática de agir segundo este princípio, isto é, o dever, não assenta em sentimentos, impulsos e inclinações, mas, sim, somente na relação dos seres racionais entre si, relação essa em que a vontade de um ser racional tem de ser considerada sempre e simultaneamente como legisladora, porque de outra forma não podia pensar-se como fim em si mesmo. A razão relaciona, pois, cada máxima da vontade concebida como legisladora universal com todas as outras vontades e com todas as ações para conosco mesmos, e isto não em virtude de qualquer outro móbil prático ou de qualquer vantagem futura, mas em virtude da ideia da dignidade de um ser racional que não obedece à outra lei senão àquela que ele mesmo simultaneamente dá a si mesmo. [...] O que se relaciona com as inclinações e necessidades gerais do homem tem um preço venal [...], aquilo, porém, que constitui a condição só graças a qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma, não tem somente um valor relativo, isto é, um preço, mas um valor íntimo, isto é, dignidade”.
Kant
Considerando o texto citado e o pensamento ético de Kant, seguem as afirmativas abaixo:
I. Para Kant, existe moral porque o ser humano e, em geral, todo o ser racional, fim em si mesmo e valor absoluto, não deve ser tomado simplesmente como meio ou instrumento para o uso arbitrário de qualquer vontade.
II. Fim em si mesmo e valor absoluto, o ser humano é pessoa e tem dignidade, mas uma dignidade que é, apenas, relativamente valiosa, por se encontrar em dependência das condições psicossociais e político-econômicas nas quais vive.
III. A moralidade, única condição que pode fazer de um ser racional fim em si mesmo e valor absoluto, pelo princípio da autonomia da vontade, e a humanidade, enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade.
IV. As pessoas têm dignidade porque são seres livres e autônomos, isto é, seres que se submetem às leis que se dão a si mesmos, atendendo imediatamente aos apelos de suas inclinações, sentimentos, impulsos e necessidades.
V. A autonomia da vontade é o fundamento da dignidade da natureza humana e de toda natureza racional e, por esta razão, a vontade não está simplesmente submetida à lei, mas submetida à lei por ser concebida como vontade legisladora universal, ou seja, se submete à lei na exata medida em que ela é a autora da lei (moral).
Das afirmativas feitas acima
somente a afirmação I está incorreta.
somente a afirmação III está incorreta.
as afirmações II e IV estão incorretas.
as afirmações II e III estão incorretas.
as afirmações II, III e V estão incorretas.
Gabarito:
as afirmações II e IV estão incorretas.
É preciso entender, primeiramente, que a reflexão kantiana a respeito da liberdade está organizada em torno da noção de autonomia. O indivíduo livre, para Kant, é aquele capaz de guiar moralmente sua vida a partir de seu próprio intelecto, suas próprias faculdades e seus próprios esforços. Livre é o indivíduo capaz de viver sem a tutela do outro, que usa publicamente sua razão e se responsabiliza por suas palavras sem se valer do uso da autoridade de outrem.
O homem livre vive uma vida regrada pelas suas próprias faculdades; por isso, deve ser capaz de definir para si mesmo uma Moral universalizável. A vontade do homem livre deve ser a boa vontade, ou seja, a vontade cujas decisões são totalmente determinadas pela Lei Moral, ou demandas morais. Os humanos percebem essa Lei como uma restrição aos seus desejos; por isso, a vontade que decide seguir a Lei Moral só pode ser motivada pela ideia de Dever.
Kant diferencia o imperativo hipotético, uma regra contigente para a ação alcançar determinado fim, do imperativo categórico. Afirma que a concepção de uma Lei Moral não pode ser meramente hipotética, pois uma ação moral não pode ser fundada sobre um propósito circunstancial. A moralidade exige uma afirmação incondicional do Dever de um indivíduo; a moralidade exige, para a ação, uma regra que seja necessária — a moralidade exige um imperativo categórico.
CORRETAS:
I, III e V.
INCORRETAS:
II. Fim em si mesmo e valor absoluto, o ser humano é pessoa e tem dignidade, mas uma dignidade que é, apenas, relativamente valiosa, por se encontrar em dependência das condições psicossociais e político-econômicas nas quais vive. —> Para Kant, a dignidade obedece a uma lei interna e não externa, que seria dependente de fatores políticos e econômicos.
IV. As pessoas têm dignidade porque são seres livres e autônomos, isto é, seres que se submetem às leis que se dão a si mesmos, atendendo imediatamente aos apelos de suas inclinações, sentimentos, impulsos e necessidades. —> A concepção de liberdade, para Kant, não corresponde a obediência aos desejos e impulsos.