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Questão 63666

UNIOESTE 2015
Filosofia

(UNIOESTE - 2015)

Os fatos, que são os segundos objetos da razão humana, não são determinados da mesma maneira, nem nossa evidência de sua verdade, por maior que seja, é de natureza igual à precedente. O contrário de um fato qualquer é sempre possível, pois, além de jamais implicar uma contradição, o espírito o concebe com a mesma facilidade e distinção como se ele estivesse em completo acordo com a realidade. Que o Sol nascerá amanhã é tão inteligível e não implica mais contradição do que a afirmação de que ele não nascerá. Podemos em vão, todavia, tentar demonstrar sua falsidade. Se ela fosse demonstrativamente falsa, implicaria uma contradição e o espírito nunca poderia concebê-la distintamente.

(David Hume, Investigação acerca do entendimento humano)

No trecho acima, Hume contrasta os fatos a que outro grupo de objetos da razão humana?

A

Os factoides, tais como exemplificados nos boatos e testemunhos maliciosos.

B

As relações entre ideias, tais como exemplificadas nas proposições matemáticas.

C

As intuições místicas, tais como exemplificadas nas revelações contidas nos textos sagrados.

D

As evidências empíricas, tais como exemplificadas nos relatos de experiências.

E

As sensações subjetivas, tais como exemplificadas nos juízos estéticos.

Gabarito:

As relações entre ideias, tais como exemplificadas nas proposições matemáticas.



Resolução:

b) Correta. As relações entre ideias, tais como exemplificadas nas proposições matemáticas.
"Os fatos, que são os segundos objetos da razão humana, não são determinados da mesma maneira, nem nossa evidência de sua verdade, por maior que seja, é de natureza igual à precedente [...]": os fatos não são determinados pela razão e não possuem a mesma natureza daquilo que os causou, isto é, não há uma relação de causa e efeito nos fatos. Deve-se ter em mente o empirismo de Hume, que supõe que a fonte de todo conhecimento deve ser a experiência, não havendo nenhum conceito inato na mente humana: todas as ideias possuem como fundamento a empiria. Portanto, não havendo nenhum conceito que não provenha da experiência, não se pode postular que a relação de causa e efeito seja algo necessário, o que demonstraria a existência de uma ideia inata na mente humana, a qual implica em necessidade e universalidade.
"[...] O contrário de um fato qualquer é sempre possível, pois, além de jamais implicar uma contradição, o espírito o concebe com a mesma facilidade e distinção como se ele estivesse em completo acordo com a realidade. [...]": como não há uma relação de causa e efeito entre os fatos, não há uma relação de necessidade intrínseca entre eles, de modo que a razão pode aceitar tanto um quanto outro fato sobre uma mesma coisa. Por isso, não se pode conceber uma contradição em conceber as duas realidades; elas devem ser determinadas pelo fato, que pode vir a ocorrer tanto uma quantro outra coisa.
"[...] Que o Sol nascerá amanhã é tão inteligível e não implica mais contradição do que a afirmação de que ele não nascerá. [...]": logo, a razão pode aceitar tanto que o sol nascerá quanto não nascerá amanhã, pois não existe uma relação de causa e efeito nele. Supor, ao contrário, que existe uma necessidade intrínseca de que o Sol vá nascer amanhã, como causa e efeito, é um hábito da mente humana, a qual, averiguando, pela experiência, a repetição contínua de um fato, julga aí haver uma relação de necessidade — sendo meramente um hábito, um costume.
"[...] Podemos em vão, todavia, tentar demonstrar sua falsidade. Se ela fosse demonstrativamente falsa, implicaria uma contradição e o espírito nunca poderia concebê-la distintamente.": Logo, se não há necessidade que o sol não nasça amanhã, não se pode supor que seja falso conceber que ele não nasça amanhã, pois, tendo a razão, isto é, o espírito, como base a experiência, consegue imaginar tal realidade, é porque ela é possível na realidade.
Portanto, a crítica de Hume se dirige às relações entre as ideias, que supõe necessidade intrínseca de relações de causa e efeito, tal como na matemática, a qual traz como pressuposto conceitos apriorísticos sem relação com os fatos.
 

a) Incorreta. Os factoides, tais como exemplificados nos boatos e testemunhos maliciosos.
A análise em questão não tem em mente os factoides, mas é a crítica de Hume à noção de causa e efeito, e não visa questionar boatos numa oposição entre crença e verdade, até porque ele não realizava essa oposição.

c) Incorreta. As intuições místicas, tais como exemplificadas nas revelações contidas nos textos sagrados.
Hume não tinha como objetivo se opor as intuições místicas no que tange à crítica à noção de causa e efeito, pois essas intuições não estão fundamentadas meramente na relação de causa e efeito.

d) Incorreta. As evidências empíricas, tais como exemplificadas nos relatos de experiências.
Hume não opõe evidência empírica e fato, pois o fato é uma evidência empírica.

e) Incorreta. As sensações subjetivas, tais como exemplificadas nos juízos estéticos.
Hume não realiza a oposição entre fatos e sensações subjetivas, pois fatos são apreendidos de sensações, além de não se voltar à questão dos juízos estéticos — elemento da filosofia kantiana.

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