(ESC. NAVAL - 2015)
O reinado do celular
De alto a baixo da pirâmide social, quase todas as pessoas que eu conheço possuem celular. É realmente um grande quebra-galho. Quando estamos na rua e precisamos dar um recado, é só sacar o aparelhinho da bolsa e resolver a questão, caso não dê pra esperar chegar em casa. Pra isso – e só pra isso – serve o telefone móvel, na minha inocente opinião.
Ao contrário da maioria das mulheres, nunca fui fanática por telefone, incluindo o fixo. Uso com muito comedimento para resolver assuntos de trabalho, combinar encontros, cumprimentar alguém, essas coisas realmente rápidas. Fazer visita por telefone é algo para o qual não tenho a menor paciência. Por celular, muito menos. Considero-o um excelente resolvedor de pendências e nada mais.
Logo, você pode imaginar meu espanto ao constatar como essa engenhoca se transformou no símbolo da neurose urbana. Outro dia fui assistir a um show. Minutos antes de começar, o lobby do teatro estava repleto de pessoas falando ao celular. “Vou ter que desligar, o espetáculo vai começar agora”. Era como se todos estivessem se despedindo antes de embarcar para a lua. Ao término do show, as luzes do teatro mal tinham acendido quando todos voltaram a ligar seus celulares e instantaneamente se puseram a discar. Para quem? Para quê? Para contar sobre o show para os amigos, para saber o saldo no banco, para o tele-horóscopo?? Nunca vi tamanha urgência em se comunicar à distância. Conversar entre si, com o sujeito ao lado, quase ninguém conversava.
O celular deixou de ser uma necessidade para virar uma ansiedade. E toda ânsia nos mantém reféns. Quando vejo alguém checando suas mensagens a todo minuto e fazendo ligações triviais em público, não imagino estar diante de uma pessoa ocupada e poderosa, e sim de uma pessoa rendida: alguém que não possui mais controle sobre seu tempo, alguém que não consegue mais ficar em silêncio e em privacidade. E deixar celular em cima de mesa de restaurante, só perdoo se o cara estivar com a mãe no leito de morte e for ligeiramente surdo.
Isso tudo me ocorreu enquanto lia o livro infantil O menino que queria ser celular, de Marcelo Pires, com ilustrações de Roberto Lautert. Conta a historia de um garotinho que não suporta mais a falta de comunicação com o pai e a mãe, já que ambos não conseguem desligar o celular nem por um instante, nem no fim de semana – levam o celular até para o banheiro. O menino não tem vez. Aí a ideia: se ele fosse um celular, receberia muito mais atenção.
Não é história da carochinha, isso rola pra valer. Adultos e adolescentes estão virando dependentes de um aparelho telefônico e desenvolvendo uma nova fobia: medo de ser esquecido. E dá-lhe falar a toda hora, por qualquer motivo, numa esquizofrenia considerada, ora, ora, moderna.
Os celulares estão cada dia menores e mais fininhos. Mas são eles que estão botando muita gente na palma da mão.
(MEDEIROS, Martha. O reinado do celular. In:__. Montanha Russa; Coisas da vida; Feliz por nada. Porto Alegre, RS: LPM, 2013. p. 369-370.)
Quanto aos aspectos coesivos, assinale a opção em que o comentário sobre o trecho destacado está correto.
“[...] é só sacar o aparelhinho da bolsa e resolver a questão, caso não dê pra esperar chegar em casa.” (1º §) – o valor semântico do conectivo é de concessão.
“Ao término do show, as luzes do teatro mal tinham acendido quando todos voltaram [...].” (3º §) – a palavra destacada funciona como conectivo subordinativo.
“o celular deixou de ser uma necessidade para virar uma ansiedade.” (4º §) – a preposição destacada corrobora a mudança de estado.
“[...] de uma pessoa ocupada e poderosa, e sim de uma pessoa rendida [...].” (4º §) – o segmento sublinhado estabelece uma relação de oposição de ideias.
“[...] não suporta mais a falta de comunicação com o pai e a mãe, já que ambos não conseguem desligar o celular [...].” (5º §) – a locução em destaque estabelece a ideia de consequência.
Gabarito:
“[...] de uma pessoa ocupada e poderosa, e sim de uma pessoa rendida [...].” (4º §) – o segmento sublinhado estabelece uma relação de oposição de ideias.
a) Alternativa incorreta. A expressão "caso", no trecho, traz uma ideia de condição e não de concessão.
b) Alternativa incorreta. O termo "mal" é o advérbio contrário de bem.
c) Alternativa incorreta. O elemento "para" não é uma preposição, e sim uma conjunção que traz, ao mesmo tempo, a ideia de finalidade e de "adição", ou seja, reflete, sim, a mudança de atributo do celular, que passou a ter uma "nova" função, efeito.
d) Alternativa correta. Nesse caso, é correto marcar a expressão "e sim", pois ela serve para contradizer (oposição de ideias) o que foi dito anteriormente: "[...] de uma pessoa ocupada e poderosa (primeira ideia) e sim (conectivo de oposição) de uma pessoa rendida (segunda ideia, diferente da primeira) [...].”
e) Alternativa incorreta. A expressão "já que" no trecho traz ideia de explicação e não de consequência.