(EsPCEx - 2021)
"Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar (...). A realidade é que eu almocei, como os demais dias."
Nesse trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis dirige-se ao leitor e informa como a história deveria ser contada, mas prefere dizer a verdade. Com isso, o autor faz uma crítica ao seguinte estilo de época da literatura:
Realismo, por imprimir uma realidade distorcida apenas para agradar o leitor.
Simbolismo, por recorrer à "fantasia" e apresentar um conflito falso entre matéria e espírito.
Barroco, por apresentar uma linguagem rebuscada e usar figura de linguagem em "titilar-lhe os nervos da fantasia".
Naturalismo, por apresentar a necessidade animalesca do homem diante de uma forma irônica.
Romantismo, por insinuar que os românticos simulariam padecimentos em vez de contar a verdade.
Gabarito:
Romantismo, por insinuar que os românticos simulariam padecimentos em vez de contar a verdade.
[E]
Nesse excerto de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador machadiano ironiza os procedimentos literários românticos. Ele dá a entender que as expectativas do leitor do século XIX já estão conformadas com o exagero do Romantismo: a desilusão gera profundo desespero, sofrimento físico, angústia completa. A prosa realista, por outro lado, se preocupa mais com o retrato do real — mostrando que a verdade pode ser menos exuberante e intensa do que haviam escrito os romancistas que a antecederam.
Sobre as demais afirmativas:
a) INCORRETA, pois Machado faz justamente o oposto — não distorce a realidade, mesmo que isso desagrade o leitor. Ele pertence ao Realismo e, com isso, não seria coerente pensar que ironiza a sua própria escrita;
b) INCORRETA, pois o excerto não apela para a "fantasia", e não contrapõe questões ligadas ao conflito matéria x espírito. O Simbolismo não é ironizado;
c) INCORRETA, a linguagem machadiana não é rebuscada, e isso não constituiria uma crítica ao Barroco. Tal estilo de época, apesar de exagerado, não é criticado nesse trecho (até porque não constitui o horizonte de leitura do leitor do século XIX);
d) INCORRETA, pois Machado não apresenta o lado animalesco do narrador, e não faz uma critica à estética e aos pressupostos do naturalismo.