(FUVEST 2013 - 2 fase) Leia o seguinte poema.
TRISTEZA DO IMPÉRIO
Os conselheiros angustiados
ante o colo ebúrneo
das donzelas opulentas
que ao piano abemolavam
“bus-co a cam-pi-na se-re-na
pa-ra-li-vre sus-pi-rar”,
esqueciam a guerra do Paraguai,
o enfado bolorento de São Cristóvão,
a dor cada vez mais forte dos negros
e sorvendo mecânicos
uma pitada de rapé,
sonhavam a futura libertação dos instintos
e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana, com rádio e telefone automático.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
a) Compare sucintamente “os conselheiros” do Império, tal como os caracteriza o poema de Drummond, ao protagonista das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
b) Ao conjugar de maneira intempestiva o passado imperial ao presente de seu próprio tempo, qual é a percepção da história do Brasil que o poeta revela ser a sua? Explique resumidamente.
Gabarito:
Resolução:
a) Os "conselheiros do império", objeto de estética e escárnio nos versos de Drummond, muito se assemelham ao protagonista de "Memórias póstumas de Brás-Cubas". Esse tipo social corresponde à elite de privilégios que, alheia aos problemas sociais - como revela o poeta em "esqueciam a guerra do Paraguai,/ o enfado bolorento de São Cristóvão,/ a dor cada vez mais forte dos negros" - se aproveitava do funcionalismo público e das relções de poder para viver, como Brás-Cubas, uma vida de ócio "ao piano", sem trabalho e consciência coletiva.
b) Os versos de Drummond, ao traçarem um paralelo entre as injustiças sociais do passado brasileiro e o panorama, para ele, contemporâneo, transmitem a ideia de um certo imobilismo, ou seja, a manutenção - ainda que sob aparências de progresso - de uma série de privilégios e mazelas que condicionam a realidade coletiva do país há muito tempo.