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Questão 7

FUVEST 2013
Português

(FUVEST 2013 - 2 fase) Leia com atenção o trecho de Til, de José de Alencar, para responder ao que se pede.

     [Berta] - Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais horrível. Que assassines por paga a quem não te fez mal, que por vingança pratiques crueldades que espantam, eu concebo; és como a suçuarana, que às vezes mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira e estraçalha tudo. Mas que te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende; porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez, e têm um faro para conhecerem o amigo que as salvou.

     [Jão] - Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno, porém, escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para se mostrar ou por vergonha de enxotar de sua casa a um pobre-diabo. A terra nos dá de comer a todos e ninguém se morre por ela.

     [Berta] - Para ti, portanto, não há gratidão?

     [Jão] - Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me quites dessa dívida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas! acrescentou Jão Fera com um suspiro profundo.

a) Nesse trecho, Jão Fera refere-se de modo acerbo a uma determinada relação social (aquela que o vinculara, anteriormente, ao seu “benfeitor”, conforme diz Berta), revelando o mal-estar que tal relação lhe provoca. Que relação social é essa e em que consiste o mal-estar que lhe está associado?

b) A fala de Jão Fera revela que, no contexto sócio-histórico em que estava inserido, sua posição social o fazia sentir-se ameaçado de ser identificado com um outro tipo social -identificação, essa, que ele considera intolerável. De que identificação se trata e por que Jão a abomina? Explique sucintamente. 

Gabarito:

Resolução:

a) A referida relação trata-se da dependência econômica de Jão Fera com relação a Luís Galvão, rico proprietário de terras. O mal-estar causado pela ideia desse laço social é a constatação, pela própria personagem, de sua condição que, apesar de livre - no sentido de não-escrava - é miserável. A percepção negativa de tal laço de benfeitoria, comum na sociedade brasileira do século XIX, é aumentada pelo fato de que o senhor que o apoiava financeiramente não o fazia por bondade, ou amor, e sim por vaidade e ostentação. 

b) A condição de "pobre-diabo" da personagem alencariana oa proxima, socialmente, da figura do escravo, ainda que usufrua de liberdade. Isso fica evidente no trecho: "por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro". Para Jão Fera, tal proximidade é repulsiva pois sua "honra" não admite que ele trabalhe com a enxada como os africanos escravizados no Brasil. A trama, contudo, mostra que a ação de Berta é capaz de transformá-lo, alterando  visão radical e negativa que ele tem com relação ao trabalho pesado. 

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