(FUVEST - 2019 - 2ª fase)
Leia os textos.
– Eu acho que nós, bois, – Dançador diz, com baba – assim como os cachorros, as pedras, as árvores, somos pessoas soltas, com beiradas, começo e fim. O homem, não: o homem pode se ajuntar com as coisas, se encostar nelas, crescer, mudar de forma e de jeito… O homem tem partes mágicas… São as mãos… Eu sei…
João Guimarães Rosa, “Conversa de bois”. Sagarana.
Um boi vê os homens
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
(...)
Carlos Drummond de Andrade, “Um boi vê os homens”. Claro enigma.
a) Em ambos os textos, o assombro de quem vê decorre das avaliações contrastantes sobre quem é visto. Justifique essa afirmação com base em cada um dos textos.
b) O conto de Rosa e o poema de Drummond valem-se de uma mesma figura de linguagem. Explicite essa figura e justifique sua resposta
Gabarito:
Resolução:
Resolução:
a) Em ambos os textos a visão que temos do homem parte da opinião dos bois, ou seja, temos a visão dos bois sobre o homem. Assim, como o título do poema de Drummond indica: “Um boi vê os homens”, existe nesse texto um visão sobre o homem a partir de uma avaliação contrastante de suas atitudes em relação aos bois, pois o homem, diferentemente do boi, fica triste e chega a crueldade, não enxerga o que é visível, é delicado como um arbusto, etc. No texto de Guimarães Rosa também podemos perceber esse contraste entre o comportamento dos bois e do homem a partir das diferenças entre eles, sendo que o homem tem as mãos como “parte mágica” do corpo, por poder se encostar nas coisas, se juntar a elas, entre outras ações mencionadas no texto, diferente dos bois que se enxergam livres, porém não da mesma forma que o homem, já que não possuem mãos.
b) A figura de linguagem utilizada é a Personificação (ou Prosopopeia), na qual características humanas são atribuídas a objetos inanimados ou seres irracionais. Em ambos os textos, os animais (os bois) apresentam uma posição de fala e uma voz, características estas próprias do ser humano.