Publicidade
Publicidade

Questão 65406

IME 2021
Português

(Modelo IME)

APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicado pela primeira vez em 1934, São Bernardo consolida o lugar de destaque de Graciliano Ramos entre os romancistas do modernismo brasileiro. Com um estilo singular, a narrativa é um potente retrato de seu tempo, atravessando questões políticas, sociais e humanas. O protagonista, Paulo Honório, é quem conta sua própria história, ambientada no sertão alagoano. Dotado de uma obstinação selvagem e capitalista, vence a pobreza, enriquece e adquire as terras da propriedade de São Bernardo, onde se desenrola a maior parte da trama. De modo bronco e dinâmico, o novo latifundiário descreve seus projetos na fazenda e na vida, que encontram o maior obstáculo em Madalena, sua esposa. A mulher, uma sensível porém determinada professora, contrapõe-se à lógica fechada e violenta do marido, até o ponto em que o atrito entre os dois se torna insuportável, e ela tira a própria vida. O capítulo abaixo, que encerra o romance, é um dos monólogos do narrador-protagonista, que revisita dores e arrependimentos do passado a partir de um presente marcado por cicatrizes. 

Texto 1

Cap. XXXVI

1              Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difíceis. E quando os amigos deixaram de vir
     discutir política, isto se tornou insuportável.
               Foi aí que me surgiu a ideia esquisita de, com o auxílio de pessoas mais entendidas que eu,
     compor esta história. A ideia gorou, o que já declarei. Há cerca de quatro meses, porém, enquanto
5   escrevia a certo sujeito de Minas, recusando um negócio confuso de porcos e gado zebu, ouvi um
     grito de coruja e sobressaltei-me.
               Era necessário mandar no dia seguinte Marciano ao forro da igreja.
               De repente voltou-me a ideia de construir o livro. Assinei a carta ao homem dos porcos e, depois
     de vacilar um instante, porque nem sabia começar a tarefa, redigi um capítulo.

10            Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo
     e bebendo café, à hora em que os grilos cantam e a folhagem das laranjeiras se tinge de preto.
               Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me
     ajeito com esta ocupação nova.
               Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável
15 esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto
     e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto.
               Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de
     duzentos mil-réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que
     me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou
20 em casa. Não tenho doença nenhuma.
               O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos
     gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não
     é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. [...]

               Se não tivesse ferido o João Fagundes, se tivesse casado com a Germana, possuiria meia dúzia de
25 cavalos, um pequeno cercado de capim, encerados, cangalhas, seria um bom almocreve. Teria crédito
     para comprar cem mil-réis de fazenda nas lojas da cidade e pelas quatro festas do ano a mulher e os
     meninos vestiriam roupa nova. Os meus desejos percorreriam uma órbita acanhada. Não me atormentariam
     preocupações excessivas, não ofenderia ninguém. E, em manhãs de inverno, tangendo os cargueiros, dando
     estalos com o buranhém, de alpercatas, chapéu de ouricuri, alguns níqueis na capanga, beberia um gole de
30 cachaça para espantar o frio e cantaria por estes caminhos, alegre como um desgraçado.
               Hoje não canto nem rio. Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam. [...]

               Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos
     esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
               Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
35           E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte!
               A desconfiança é também consequência da profissão.
               Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro,
     nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
               Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
40           Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.
               A vela está quase a extinguir-se.
               Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
               Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o
     nordeste furioso espalha folhas secas no chão.
45           É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.
               Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!
               Casimiro Lopes está dormindo. Marciano está dormindo. Patifes!
               E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa
     e descanse uns minutos. 

RAMOS, G. S. Bernardo. 88. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora Record, 2009. p. 108-111. 

 

O poema "Retrato", de Cecília Meireles, foi originalmente publicado em seu livro Viagem, de 1939. Coerente com o lirismo ao mesmo tempo íntimo e universal da poeta, os versos trazem uma reflexão sobre a passagem do tempo e a identidade, assumida por um sujeito em primeira pessoa, que enuncia no poema. É um dos mais célebres textos da autora cuja voz singular ecoa na literatura brasileira do século XX e reinventa formas de sensibilidade musical, espiritual e psicológica na poesia. 

Texto 2

Retrato

1        Eu não tinha este rosto de hoje,
          assim calmo, assim triste, assim magro,
          nem estes olhos tão vazios,
          nem o lábio amargo.

5        Eu não tinha estas mãos sem força,
          Tão paradas e frias e mortas;
          Eu não tinha este coração
          que nem se mostra.

          Eu não dei por esta mudança,
10      tão simples, tão certa, tão fácil:
          — Em que espelho ficou perdida
          a minha face?

MEIRELES, C. "Retrato". In: Viagem. 2. ed. São Paulo: Global Editora, 2012. p. 26. 

Quanto aos textos apresentados, assinale a afirmativa que apresenta uma incorreção.

A

Os dois textos lidam com um enfrentamento entre o passado e o presente, que motiva conflitos de ordem existencial. 

B

Mesmo que publicados na mesma década, os textos apresentam diferentes propostas estéticas e recortes temáticos, evidenciando a pluralidade da literatura modernista no Brasil. 

C

O Texto 1 possui uma ambientação espacial construída a partir de elementos da paisagem ao redor do narrador; enquanto o Texto 2 não se preocupa em descrever elementos físicos relativos ao espaço. 

D

A identificação dos textos com dois registros diferentes — prosaico e poético, respectivamente — evidencia a impossibilidade de que eles tragam reflexões semelhantes no que tange a experiência subjetiva de seus enunciadores. 

E

Mesmo que elementos formais presentes no Texto 2, como a rima e a métrica, não se evidenciem no Texto 1, é possível dizer que este, como aquele, é elaborado esteticamente e possui uma dimensão formal importante para imprimir aspectos como o ritmo e a emoção à narrativa. 

Gabarito:

A identificação dos textos com dois registros diferentes — prosaico e poético, respectivamente — evidencia a impossibilidade de que eles tragam reflexões semelhantes no que tange a experiência subjetiva de seus enunciadores. 



Resolução:

[D]

Embora pertençam a registros literários diferentes (a prosa e a poesia), os dois textos são capazes, sim, de trazer reflexões semelhantes sobre a existência e a imagem de seus respectivos enunciadores. Paulo Honório, assim como o eu lírico de Cecília Meireles, se defronta com sua imagem a partir de uma dobra entre passado e presente. Além disso, não há uma relação causal entre a diferença nas formas e a impossibilidade de trazer reflexões análogas, como sugere a alternativa. 

Sobre as demais afirmativas: 

a) CORRETA. Os dois sujeitos que enunciam se posicionam diante de contrastes entre o passado e o presente, que os levam a reflexões e questionamentos de natureza existencial; 

b) CORRETA. As diferenças evidentes na forma dos textos e em suas temáticas, ainda que sejam atravessados por reflexões comuns, mostra que existe uma pluralidade interna ao que se convenciona chamar "modernismo"; 

c) CORRETA. A referência a "laranjeira", "gafanhotos", "serra", "folhas secas", "nordeste furioso" e "igreja" permite situar a narrativa do Texto 1 no espaço (o sertão nordestino); no Texto 2, por outro lado, não há referência a elementos espaciais concretos, impedindo essa representação; 

e) CORRETA. Os dois textos revelam preocupação estética e trabalho formal, ainda que isso se evidencie de modo diverso entre eles. Enquanto no poema se recorre à métrica e à rima, fatore como a pontuação, a justaposição e a repetição permeiam a prosa de G. Ramos, conferindo-lhe expressividade. 

Questões relacionadas

Questão 65416

(Modelo IME)  No Texto 1, o narrador-personagem assenta seu discurso sob uma perspectiva marcadamente autocrítica, com ponderações e juízos negativos sobre seus...
Ver questão

Questão 65417

(Modelo IME)                 "Foi aí que me surgiu a ideia esquisita de, com o auxílio de pessoas mais entendidas que eu, compor esta h...
Ver questão

Questão 65424

(Modelo IME)  Assinale a alternativa com uma associação correta entre o trecho destacado e a figura de linguagem nele presente. 
Ver questão

Questão 65462

(Modelo IME)  O conjunto de referências à personagem Madalena no Texto 1 (linhas 1, 32 e 39) evidencia, por parte do narrador, um sentimento predominante de 
Ver questão
Publicidade