(Modelo IME)
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.
Publicado pela primeira vez em 1934, São Bernardo consolida o lugar de destaque de Graciliano Ramos entre os romancistas do modernismo brasileiro. Com um estilo singular, a narrativa é um potente retrato de seu tempo, atravessando questões políticas, sociais e humanas. O protagonista, Paulo Honório, é quem conta sua própria história, ambientada no sertão alagoano. Dotado de uma obstinação selvagem e capitalista, vence a pobreza, enriquece e adquire as terras da propriedade de São Bernardo, onde se desenrola a maior parte da trama. De modo bronco e dinâmico, o novo latifundiário descreve seus projetos na fazenda e na vida, que encontram o maior obstáculo em Madalena, sua esposa. A mulher, uma sensível porém determinada professora, contrapõe-se à lógica fechada e violenta do marido, até o ponto em que o atrito entre os dois se torna insuportável, e ela tira a própria vida. O capítulo abaixo, que encerra o romance, é um dos monólogos do narrador-protagonista, que revisita dores e arrependimentos do passado a partir de um presente marcado por cicatrizes.
Texto 1
Cap. XXXVI
1 Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difíceis. E quando os amigos deixaram de vir
discutir política, isto se tornou insuportável.
Foi aí que me surgiu a ideia esquisita de, com o auxílio de pessoas mais entendidas que eu,
compor esta história. A ideia gorou, o que já declarei. Há cerca de quatro meses, porém, enquanto
5 escrevia a certo sujeito de Minas, recusando um negócio confuso de porcos e gado zebu, ouvi um
grito de coruja e sobressaltei-me.
Era necessário mandar no dia seguinte Marciano ao forro da igreja.
De repente voltou-me a ideia de construir o livro. Assinei a carta ao homem dos porcos e, depois
de vacilar um instante, porque nem sabia começar a tarefa, redigi um capítulo.
10 Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo
e bebendo café, à hora em que os grilos cantam e a folhagem das laranjeiras se tinge de preto.
Às vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranças. Outras vezes não me
ajeito com esta ocupação nova.
Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável
15 esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto
e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto.
Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de
duzentos mil-réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que
me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou
20 em casa. Não tenho doença nenhuma.
O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos
gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não
é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. [...]
Se não tivesse ferido o João Fagundes, se tivesse casado com a Germana, possuiria meia dúzia de
25 cavalos, um pequeno cercado de capim, encerados, cangalhas, seria um bom almocreve. Teria crédito
para comprar cem mil-réis de fazenda nas lojas da cidade e pelas quatro festas do ano a mulher e os
meninos vestiriam roupa nova. Os meus desejos percorreriam uma órbita acanhada. Não me atormentariam
preocupações excessivas, não ofenderia ninguém. E, em manhãs de inverno, tangendo os cargueiros, dando
estalos com o buranhém, de alpercatas, chapéu de ouricuri, alguns níqueis na capanga, beberia um gole de
30 cachaça para espantar o frio e cantaria por estes caminhos, alegre como um desgraçado.
Hoje não canto nem rio. Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam. [...]
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos
esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
35 E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiança é também consequência da profissão.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro,
nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
40 Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.
A vela está quase a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem.
Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o
nordeste furioso espalha folhas secas no chão.
45 É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.
Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!
Casimiro Lopes está dormindo. Marciano está dormindo. Patifes!
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa
e descanse uns minutos.
RAMOS, G. S. Bernardo. 88. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora Record, 2009. p. 108-111.
O poema "Retrato", de Cecília Meireles, foi originalmente publicado em seu livro Viagem, de 1939. Coerente com o lirismo ao mesmo tempo íntimo e universal da poeta, os versos trazem uma reflexão sobre a passagem do tempo e a identidade, assumida por um sujeito em primeira pessoa, que enuncia no poema. É um dos mais célebres textos da autora cuja voz singular ecoa na literatura brasileira do século XX e reinventa formas de sensibilidade musical, espiritual e psicológica na poesia.
Texto 2
Retrato
1 Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
5 Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
10 tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
MEIRELES, C. "Retrato". In: Viagem. 2. ed. São Paulo: Global Editora, 2012. p. 26.
Quanto aos textos apresentados, assinale a afirmativa que apresenta uma incorreção.
Os dois textos lidam com um enfrentamento entre o passado e o presente, que motiva conflitos de ordem existencial.
Mesmo que publicados na mesma década, os textos apresentam diferentes propostas estéticas e recortes temáticos, evidenciando a pluralidade da literatura modernista no Brasil.
O Texto 1 possui uma ambientação espacial construída a partir de elementos da paisagem ao redor do narrador; enquanto o Texto 2 não se preocupa em descrever elementos físicos relativos ao espaço.
A identificação dos textos com dois registros diferentes — prosaico e poético, respectivamente — evidencia a impossibilidade de que eles tragam reflexões semelhantes no que tange a experiência subjetiva de seus enunciadores.
Mesmo que elementos formais presentes no Texto 2, como a rima e a métrica, não se evidenciem no Texto 1, é possível dizer que este, como aquele, é elaborado esteticamente e possui uma dimensão formal importante para imprimir aspectos como o ritmo e a emoção à narrativa.
Gabarito:
A identificação dos textos com dois registros diferentes — prosaico e poético, respectivamente — evidencia a impossibilidade de que eles tragam reflexões semelhantes no que tange a experiência subjetiva de seus enunciadores.
[D]
Embora pertençam a registros literários diferentes (a prosa e a poesia), os dois textos são capazes, sim, de trazer reflexões semelhantes sobre a existência e a imagem de seus respectivos enunciadores. Paulo Honório, assim como o eu lírico de Cecília Meireles, se defronta com sua imagem a partir de uma dobra entre passado e presente. Além disso, não há uma relação causal entre a diferença nas formas e a impossibilidade de trazer reflexões análogas, como sugere a alternativa.
Sobre as demais afirmativas:
a) CORRETA. Os dois sujeitos que enunciam se posicionam diante de contrastes entre o passado e o presente, que os levam a reflexões e questionamentos de natureza existencial;
b) CORRETA. As diferenças evidentes na forma dos textos e em suas temáticas, ainda que sejam atravessados por reflexões comuns, mostra que existe uma pluralidade interna ao que se convenciona chamar "modernismo";
c) CORRETA. A referência a "laranjeira", "gafanhotos", "serra", "folhas secas", "nordeste furioso" e "igreja" permite situar a narrativa do Texto 1 no espaço (o sertão nordestino); no Texto 2, por outro lado, não há referência a elementos espaciais concretos, impedindo essa representação;
e) CORRETA. Os dois textos revelam preocupação estética e trabalho formal, ainda que isso se evidencie de modo diverso entre eles. Enquanto no poema se recorre à métrica e à rima, fatore como a pontuação, a justaposição e a repetição permeiam a prosa de G. Ramos, conferindo-lhe expressividade.