(Mack-2005)
A valsa é uma deliciosa cousa. Valsamos; não nego que, ao aconchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado. (...) Cerca de três semanas depois recebi um convite dele [Lobo Neves, marido de Virgília] para uma reunião íntima.
Fui; Virgília recebeu-me com esta graciosa palavra: - O senhor hoje há de valsar comigo. Em verdade, eu tinha fama e era valsista emérito; não admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la, e todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam ... Um delírio.
Machado de Assis Obs.: o amor luxurioso entre Francesca da Rimini e Paolo Malatesta obriga Dante Alighieri a colocá-los no Inferno, em sua Divina Comédia. O livro que os perdeu é a narrativa do amor adulterino de Lancelote do Lago e Ginebra, mulher do Rei Artur - uma novela de cavalaria pertencente ao ciclo bretão.
Em texto sobre O primo Basílio, de Eça de Queirós, Machado de Assis afirma: “o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio”.
Assinala que o escritor português já provocara admiração dos leitores com O crime do Padre Amaro e acrescenta: “Pois que havia de fazer a maioria, senão admirar a fidelidade de um autor, que não esquece nada, e não oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha.”
Considerados o estilo de Machado e seu contexto, deve-se compreender as palavras acima destacadas como
elogio a uma prática inovadora que o autor brasileiro adotou desde a obra inicial, tornando-se o maior representante do Realismo no Brasil
recusa do Realismo entendido como reprodução fotográfica, que não propicia a escolha dos detalhes mais significativos de uma situação ou perfil humano.
crítica à “velha poética”, que, mais sutil, mais sugeria do que explicitava, negando-se a descrições detalhadas.
negação dos procedimentos típicos dos escritores românticos, que, evitando a observação da realidade, em nada podiam contribuir para a formação da consciência da nacionalidade.
elogio ao público pelo reconhecimento do valor do escritor português, fiel à descrição e avaliação da sociedade burguesa que retrata em suas obras.
Gabarito:
recusa do Realismo entendido como reprodução fotográfica, que não propicia a escolha dos detalhes mais significativos de uma situação ou perfil humano.
Assinala que o escritor português já provocara admiração dos leitores com O crime do Padre Amaro e acrescenta: “Pois que havia de fazer a maioria, senão admirar a fidelidade de um autor, que não esquece nada, e não oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha.”
Considerados o estilo de Machado e seu contexto, deve-se compreender as palavras acima destacadas como
Comentário geral: a alternativa B "recusa do Realismo entendido como reprodução fotográfica, que não propicia a escolha dos detalhes mais significativos de uma situação ou perfil humano." é considerada como correta porque Machado de Assis critica em Eça de Queirós a fidelidade mecanicista à reprodução fotográfica da realidade, o simples inventário documental, minucioso. (“Só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia”)